«Lembrai-vos de que os vossos leitores não gostam de fazer esforços e preferem instruir-se como se estivessem a brincar. É também penoso constatar a própria ignorância acerca de um assunto que se julgava conhecer. Se alguma vez a fortuna vos impuser a tarefa de instruir o público sobre coisas que lhe são familiares, tende o cuidado de o preparar suavemente e de confessar, no vosso preâmbulo, que, antes de terdes sido esclarecidos por um sábio (que nomeareis), éreis tão ignorantes como ele. Não receeis troçar de vós próprios nessa ocasião, nem parecer completamente estúpidos aos olhos de todos.
Embora o vosso papel seja o de estar imediatamente acima do público, não deveis, se quiserdes agradar-lhe, deixar que ele o sinta. Nunca tereis maior êxito do que quando o mais humilde dos vossos leitores se julgar mais sábio ou mais espirituoso do que vós. Cada homem gosta de se convencer de que possui mais inteligência e espírito do que os outros. A vossa função é ajudá-lo a acreditar nisso.
Deveis fornecer-lhe ditos espirituosos sem dar a entender que o fazeis, tal como os bobos da corte os forneciam aos seus reis.»
Mœurs des Diurnales: Traité de journalisme,
Paris, Société du Mercure de France, 1903.
Onde a filiação entre Pinóquio, o Outro, e a Criança Lua é posta em causa. Félix tenta, tanto quanto pode, transcrever a torrente de palavras que o assaltam. Desejaria, do fundo do coração, consegui-lo antes de, exausto e antecipadamente reconhecido, ceder à hipótese do naufrágio.
Diário de Félix
Acontece-me muitas vezes, fora das minhas ocupações profissionais, pensar em Pinóquio, o Outro, e na Criança Lua. São criaturas de Igniatius. É o que diz Lucian. Pergunto-me o que liga todo este pequeno mundo. A princípio, quando recebia as primeiras cartas e desenhos de Lucian, considerei que a segunda poderia ser, naturalmente, a evolução simbólica do primeiro. Era assim que me apareciam. Via-os como duas personagens inventadas sucessivamente. Esta interpretação parece-me cada vez mais insuficiente. Pressupõe que um espírito concebeu primeiro uma personagem e, depois, perante a sua evolução, decidiu criar a segunda. Aquilo que percebo entre ambas assemelha-se mais a uma transformação na qual a primeira forma teria evoluído até ao ponto em que já não podia impedir aquilo que lhe estava a acontecer. Algo em Pinóquio, o Outro, parece ter-se desfeito por si mesmo. Desapareceu. A Criança Lua não seria, portanto, exatamente a sua sucessora. Muito menos a sua substituta. Seria aquilo em que se transforma uma questão quando já não pode continuar a colocar-se naquilo que inicialmente a sustentava.
Segundo o que leio nas cartas e nos escritos de Lucian e de Igniatius, também aí houve um naufrágio. Mas não nos precipitemos. Desconfio dessa facilidade. Uma metáfora que começa a explicar demasiadas coisas acaba geralmente por deixar de esclarecer seja o que for. E, no entanto, alguma coisa insiste. Não consigo fazê-la calar. Tanto no navio como nos desenhos, uma organização que até então parecia suficientemente estável deixa de conseguir manter, por si só, a coerência do mundo que continha. O que se segue não é o nada, mas outra maneira de se manter unido. É isso que me perturba. A descoberta de que o desmoronamento de uma forma não implica necessariamente o desmoronamento de tudo aquilo que ela organizava. O que permanece pode recompor-se segundo relações que anteriormente não eram visíveis.
O cérebro, parece-me, não cessa de fazer algo bastante semelhante. Guardar-me-ia de daí retirar precipitadamente uma teoria. A bordo do transatlântico, os meus olhos e o meu sentido de equilíbrio começaram a fornecer informações que já não concordavam entre si. Foi necessário que alguma coisa dentro de mim negociasse essa discordância para que eu pudesse continuar a deslocar-me.
Aqui mesmo, quando observo uma extensão de água que reflete o céu entre duas massas rochosas, sei que aquilo a que chamo simplesmente «ver» pressupõe uma quantidade de ajustamentos dos quais quase nada percebo. A luz muda, a superfície move-se, o ângulo do meu olhar desloca-se, enquanto o mundo permanece, apesar de tudo, suficientemente estável para que eu continue a reconhecer água, rochedos, um céu e essa estranha continuidade que me permite acreditar que ainda estou diante da mesma cena. Talvez o eu intervenha precisamente aí, não como uma pequena pessoa encerrada atrás dos olhos, imagem que nunca me convenceu, mas como essa continuidade constantemente reconstruída entre aquilo que acontece e aquele a quem acontece.
