Assim que se procura um ponto de apoio, desmorona-se.
O vertigem é uma tentação de queda, mas também uma tentação de elevação.
É a recusa da fixidez, a nostalgia de um outro lugar onde nada se estabiliza.
Não fomos feitos para a posição ereta, mas para a oscilação.
O vertigem revela que o nosso equilíbrio é apenas uma ficção momentânea.
O que nos assusta nele não é a queda, mas a ausência de fundo.
Pois cair ainda supõe uma direção, um termo.
O vertigem, pelo contrário, entrega-nos a um infinito sem referência.
É a experiência de um espaço onde o alto e o baixo se anulam.
E é por isso que nos atrai tanto quanto nos repele.
No vertigem, o ser desfaz-se de si mesmo.
Descobre que não está enraizado, mas suspenso.
Suspenso sobre o nada, ou antes no coração de um nada ativo, que o trabalha e o decompõe.»
«Há apenas uma maneira de suportar o vertigem: abandonar-se a ela.
Emil Cioran, A Queda no Tempo
A palavra vertigem traz em si uma oscilação: designa ao mesmo tempo uma sensação física muito precisa e uma experiência interior muito mais vasta, quase metafísica.
Do ponto de vista etimológico, vertigem vem do latim vertigo, derivado do verbo vertere, girar. Isto não é insignificante: antes de ser uma perda de equilíbrio, a vertigem é, antes de mais, um movimento, ou mais exatamente uma rotação. Algo gira, o mundo, ou o próprio sujeito, e essa rotação perturba a estabilidade da relação entre o corpo e o espaço. A vertigem não é, portanto, imediatamente uma queda: é uma desorientação nascida de um excesso de movimento ou da ausência de um ponto fixo.
No seu sentido primeiro, a vertigem designa uma perturbação do sistema vestibular: o corpo já não consegue conciliar o que percebe com o que sente. O olho diz uma coisa, o ouvido interno outra. Há um conflito. E esse conflito produz uma espécie de ficção involuntária: o mundo parece inclinar-se, oscilar, fugir. O que é estável torna-se instável, não na realidade, mas na experiência vivida. Mas rapidamente a palavra ultrapassa este quadro fisiológico. A vertigem torna-se então uma experiência do limite.
Ela surge quando os referenciais habituais, espaciais mas também conceptuais, deixam de se sustentar. Diante de um precipício, por exemplo, a vertigem não é apenas o medo de cair. Como já havia intuído Søren Kierkegaard, há na vertigem uma ambiguidade mais profunda: não é apenas o receio da queda, mas também a estranha possibilidade de nos abandonarmos a ela. A vertigem seria assim «a vertigem da liberdade», não a perda de controlo, mas a revelação súbita de que nada nos prende absolutamente.
O vazio atrai tanto quanto assusta.
É aqui que a vertigem se torna um conceito. Designa a experiência de um excesso: excesso de espaço, de profundidade, de possibilidades, ou mesmo de sentido. Perante o infinito… do mar, do céu, ou de uma ideia… o espírito vacila porque já não consegue conter o que encontra. Há demasiado para apreender, e nada a que se agarrar. A vertigem está, portanto, ligada a uma falha… aquilo que deveria conter já não contém.
Neste sentido, a vertigem toca diretamente aquilo que a Criança-Lua explora: a questão do limiar.
O limiar, enquanto é habitável, organiza a passagem. Mas quando se abre sem medida, quando deixa de delimitar e permite o afluxo sem contenção, torna-se vertiginoso. A vertigem seria então um limiar sem bordo, uma delimitação que se desfaz no próprio momento em que deveria operar.
Há também uma vertigem do tempo.
Ela surge em certas experiências de memória ou de pensamento: quando o passado regressa não como recordação ordenada, mas como massa indistinta; ou quando o presente parece dilatar-se até perder consistência. Mais uma vez, algo «gira»: os referenciais temporais desfazem-se, e já não se sabe onde nem a quê se agarrar.
Por fim, existe uma vertigem da linguagem.
Ela surge quando as palavras deixam de estabilizar aquilo que designam. Quando uma frase abre demasiados sentidos ao mesmo tempo, quando uma imagem excede qualquer interpretação, produz-se uma espécie de rotação do sentido sobre si mesmo. A linguagem já não fixa: arrasta. Já não se lê um texto, é-se apanhado por ele.
A vertigem, neste sentido, não é apenas uma perda. É uma experiência-limite onde algo se revela: a ausência de um fundo estável, ou mais precisamente o facto de o próprio fundo estar em movimento. Não é o mundo que vacila, é a pretensão à sua fixidez que se abala.
Talvez então a vertigem não seja o oposto do equilíbrio, mas o seu reverso secreto: aquilo que recorda que o equilíbrio nunca é dado de uma vez por todas, que está sempre em vias de se fazer, à beira da sua própria desaparição.
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