lundi 6 juillet 2026

(136) A abracadabrante história da Criança Lua


« As grandes florestas das Índias Ocidentais não são simples aglomerados de árvores, mas repúblicas obscuras, enxertadas sobre si mesmas, onde cada planta, cada ramo, cada liana vive graças a um antigo pacto com as outras. O homem não penetra nelas; é por elas engolido, como o ar pelas narinas de uma fera adormecida.»

Segundo Sir Hans Sloane, médico e naturalista, Journal of a Voyage to the Islands Madera, Barbados, Nieves, St. Christophers and Jamaica (1696–1701), livremente interpretado a partir das suas observações.
 
 

Onde o douto Dom Cenoura, ainda não verdadeiramente sábio, se alonga, demoradamente, sobre aquilo que vai desaparecer... talvez em breve... e por muito tempo...

– Sangue Quente, meu amigo, tu que pareces ser ora o meu duplo de pernas curtas... ora o meu intérprete ambulante das florestas. É preciso que saibas — e peço-te que não me interrompas demasiado cedo — que esta aventura, que julgas ter começado nos bosques, ou numa ilha, ou num sonho mais espesso do que a casca desta venerável árvore, não foi inventada para matar o tempo. Nem para a glória... muito menos para a ciência... que respeito... quando ela respeita as minhas ilusões. Foi, isto compromete apenas a mim... mas enfurece muita gente, como tantas grandes coisas, semeada pelo acaso e feita crescer pelo cansaço... se não mesmo pela mortal inação.
Porque, vês tu, eu estava cansado. Desejava algo de novo. Algo de vivo... Algo de desarrazoado... e, acima de tudo, o silêncio que murmura de vida.
Foi então que, por um milagre que ignoro, ouvi falar desta ilha. Não, Sangue Quente, não digas nada... Bem sei que não me disseste absolutamente nada... precisamente isso foi o que me plantou a semente no ouvido. Limitaste-te a conduzir-me, como quem nada quer, até esta floresta que cresce fora de toda a lógica geográfica, sobre uma pedra vulcânica onde até o próprio solo hesita.
Agora escuta, pois, o meu relato...

Excerto do diário de Dom Cenoura

A floresta estendia-se até perder de vista, densa e soberana, como um continente de folhagem viva. Nada ali parecia entregue ao acaso: as árvores colossais formavam fileiras silenciosas; as lianas desciam como os fios de um tear invisível, tecendo o ar entre os troncos; e, até ao chão, tudo estava ocupado, conquistado pela matéria viva.
A luz fazia-se rara, suavizada pela espessura da folhagem, como se atravessasse um vitral orgânico. Caía em véus esverdeados, animando musgos, líquenes, ervas minúsculas e fetos flamejantes numa coreografia lenta... mas enganadora. Cada coisa naquele mundo possuía o seu próprio odor, o seu murmúrio particular, reconhecível entre mil outros. Poder-se-ia acreditar que a floresta falava, não uma língua humana, mas a língua do tempo vegetal.
Anotava: a casca rugosa da ceiba, o brilho oleoso das folhas da seringueira selvagem, os insetos de carapaças envernizadas, o voo errático de borboletas demasiado coloridas para parecerem reais. Pensava poder classificar tudo. Queria dar nome às coisas apenas depois de as compreender. Ainda acreditava, ingenuamente, que permanecia do lado de fora dessa realidade... dentro da qual ia descobrindo todas essas coisas.
Mas já, enquanto assim pensava, alguma coisa mudava. Muito subtilmente. Uma sensação... quase nada... Um incómodo difuso, uma rigidez na nuca, um bater do coração um pouco mais acelerado, e os meus pensamentos começavam lentamente a derivar... O solo tornava-se esponjoso.
Os caminhos desapareciam atrás de mim, engolidos. E as árvores... As árvores aproximavam-se, não fisicamente, é claro... mas na sua intenção.
Por um instante, pareceu-me que uma delas se movera...
Ou talvez tivesse sido eu.


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