mardi 7 juillet 2026

(137) A abracadabrante história da Criança Lua


« Pois não basta ter lembranças. As lembranças não bastam. É preciso poder esquecê-las quando são muitas, e possuir a grande paciência de esperar que regressem. Porque as próprias lembranças ainda não são o essencial. Só quando se tornam em nós sangue, olhar, gesto; quando já não têm nome e deixam de distinguir-se de nós, só então pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas, surja a primeira palavra de um verso.»

Rainer Maria Rilke, 
Os Cadernos de Malte Laurids Brigge


Onde se desenvolve a possibilidade de existirem lembranças que não sejam lembranças de acontecimento algum.

Caderno de Félix

A Criança Lua caminha há tanto tempo que, por vezes, lhe parece nunca ter começado a sua viagem. Não procura um lugar perdido nem uma idade desaparecida. Aquilo que traz dentro de si nunca pertenceu verdadeiramente ao passado. É outra coisa: uma fidelidade obscura a uma presença da qual se afasta a cada passo. Porque há afastamentos que não apagam; revelam.
Enquanto permanecemos completamente mergulhados numa realidade, nada se desprende dela. Nada pode ainda tornar-se memória. Como recordar aquilo que nos envolve por inteiro? É necessário que se abra uma distância, por mais ínfima que seja, para que nasça essa estranha luz a que chamamos lembrança. Assim, a Criança Lua não guarda a memória do todo porque tenha permanecido junto dele. Guarda-a porque dele se afasta sem cessar. Não saberia dizer o que era essa totalidade primeira. Ela não possuía contornos, nem rosto, nem sequer essa unidade a que hoje chamamos mundo. Ainda não havia mundo, porque o mundo já supõe que exista algo que não seja ele próprio. Ainda não havia imagens, porque uma imagem é sempre uma separação consentida, uma forma que aceita desprender-se de um fundo. Talvez nem sequer houvesse ser, se por ser já entendermos uma palavra capaz de distinguir aquilo que é daquilo que não é.
Havia apenas uma presença tão plena que ainda não podia conhecer-se a si mesma.
A Criança Lua não se recorda, pois, dessa presença como quem recorda uma casa onde viveu. Sente antes a sua ressonância silenciosa, semelhante àqueles acordes cuja vibração o ouvido continua a perceber muito depois de o instrumento se ter calado. O que permanece nela não é uma imagem; é uma maneira de ser tocada por aquilo que, doravante, já não pode regressar.
À medida que avança, o mundo vai-se povoando. Os caminhos distinguem-se das falésias, as árvores das rochas, os rostos das multidões, as palavras do silêncio. Cada reconhecimento acrescenta uma nova precisão ao seu universo. Cada palavra ilumina uma diferença que até então passara despercebida. O real ganha em nitidez aquilo que perde em indivisão.
Por detrás da sua máscara sorridente, a Criança Lua parece acolher essas distinções com a serena gravidade de quem sabe que elas são necessárias. Contudo, no próprio coração de cada uma delas, parece-lhe por vezes ouvir um discreto chamamento, como se cada coisa acabada de surgir conservasse ainda, nas suas profundezas, a lembrança daquilo de que um dia se desprendeu.
Talvez seja por isso que desenhou... e que continua a desenhar.
Não procura reproduzir o mundo, nem tão-pouco ser-lhe fiel como um espelho parece sê-lo àquilo que reflete. Procura antes preservar, em cada imagem, alguma coisa dessa unidade primeira que as formas visíveis não cessam de dividir. Desenha como outros escutam um eco, com a secreta esperança de que a fragmentação do mundo ainda deixe passar, entre duas linhas, uma respiração mais antiga.
Acontece-lhe então erguer os olhos para a lua.
Ela não possui luz própria. Recebe-a de outro astro, mas nunca por inteiro. Uma parte escapa-lhe sempre; outra permanece constantemente na sombra. E, no entanto, talvez seja precisamente graças a essa incompletude que ela se torna visível. Uma luz total cegar-nos-ia... uma luz refletida acompanha-nos.
A Criança Lua assemelha-se a essa claridade.
Não transporta... nem ilumina o todo... ninguém o poderia fazer. Mas recolhe um frágil clarão que se recusa a extinguir-se. Quanto mais o mundo se torna preciso, mais precioso esse clarão se torna. Quanto mais as coisas adquirem os seus nomes, mais ele recorda silenciosamente que, antes de todas as separações, antes das imagens, antes das palavras, antes mesmo desse estranho hábito que adquirimos de dizer «o mundo», existia uma presença que não se distinguia de nada, porque continha ainda, sem o saber, todas as distinções que estavam por vir.


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