samedi 15 août 2026

(174) A abracadabrante história da Criança Lua


« Há instantes em que a visão precede qualquer reconhecimento. O mundo já não se oferece como coisa vista, mas como surgimento. Aquilo que vemos ainda não é nada e, no entanto, atinge-nos, como um apelo sem nome.»

Retirado do diário de Sang Chaud¹



Onde Don Carotte leva algum tempo a ver… ou a compreender, não aquilo que via, mas simplesmente… que via.



Diário de Don Carotte

— Era uma sensação estranha, parecia-me estar verdadeiramente a ver pela primeira vez… e, no entanto, aquilo que via, a imagem que se formava na minha cabeça, era perfeitamente irreconhecível… a tal ponto que, naquele momento, poderia ter dito que não havia imagem alguma! É certo que, até então, eu tinha visto, mas sem saber que via… Era estranho. Eu via sem precisar de ver. Depois, lentamente, a imagem formava-se, eu sabia que se formava, mas não via o que ela queria dizer… pois, naquele instante, não se tratava de um animal conhecido, nem de um inseto, nem sequer de um objeto. Aquilo que eu via, ou julgava ver, era um ser, mas de forma indefinível.
Era-me perfeitamente desconhecida.
Mais tarde, escreveria no mesmo diário…
Minúsculo, quase invisível, mesmo quando o fixávamos com toda a acuidade da atenção. Estava ali, pousado sobre a árvore gigante, mas não parecia habitá-la, nem estar agarrado a ela. Antes como se dela fizesse parte, sem, contudo, fazer inteiramente parte dela.
Movia-se. Aos solavancos, com gestos que nada evocavam de conhecido. Nem o movimento de um corpo articulado, nem o encolher de um animal, nem sequer uma luz. Antes como um deslizamento de dimensão, um dobrar da matéria sobre si própria, que por vezes dava a impressão de um braço, depois de uma asa, depois de um olho, sem nunca se fixar numa forma. E aquele movimento, aquele ritmo, não obedecia a nenhum sopro terrestre.

Onde Don Carotte, sem ter a menor dúvida, sabia que aquele ser o observava. Aquela minúscula coisa movente, pousada sobre a casca do gigante que, por sua vez, não cessava de crescer.

Um olhar sem pupila, sem direção aparente. Mas, ainda assim, um olhar. Sentia-o em cada um dos seus ossos. Um olhar que atravessava, que pesava, não sobre a carne, mas sobre o pensamento. Como se aquilo que ali se encontrava compreendesse, antecipasse até, tudo o que ele iria sentir.
E quanto mais o fixava, mais a perceção do ser se alterava. Era minúsculo, sem dúvida, mas à medida que se tentava delimitá-lo, crescia no espírito. Ocupava espaço, não no espaço, mas na atenção. Tornava-se central, absorvendo toda a noção de distância ou de escala… Nada que se assemelhasse a uma lógica… fosse ela qual fosse.
Era aquilo que não se devia nomear. Pois dar-lhe um nome teria sido fazê-lo existir de outra maneira. E isso, instintivamente, Don Carotte temia.
— Está ali desde o princípio — disse Sang Chaud, quase em voz baixa, como se se dirigisse mais à árvore do que ao seu mestre.
— Quem?
— Ele.
Não disse mais nada. Não precisava. O instante adensava-se. O próprio silêncio se tornava matéria.
Alguma coisa estava ali.
Essa coisa olhava… olhava para eles.
E agora, aquela coisa indefinível esperava.


¹ Inspirado na fenomenologia existencial de Henri Maldiney.

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