Onde Don Carotte descobre, no próprio ritmo dos acontecimentos, maravilhado e aterrorizado ao mesmo tempo, que aquilo que julgava observar começou também a observá-lo.
Caderno de Don Carotte
Deixei a costa antes do nascer do sol com a intenção de alcançar um dos pontos mais altos de uma daquelas ilhas onde nos perdemos. Não porque esperasse descobrir alguma coisa em particular. Há muito me apercebi de que as coisas mais importantes quase nunca consentem em mostrar-se àquele que as procura. Preferem surpreender aquele que, tendo renunciado a persegui-las, lhes deixa enfim a possibilidade de virem até ele.
O céu possuía uma limpidez quase inquietante. O mar, habitualmente tão pródigo em multiplicar as suas tonalidades, parecia ter escolhido conservar apenas uma, como se tivesse decidido reter dentro de si todas as outras. Nada parecia poder perturbar aquela imobilidade.
E, no entanto, antes mesmo de o meu olhar abandonar as arribas mais próximas, senti que alguma coisa tinha mudado.
A ilha que se erguia diante de mim já não se parecia com aquela que eu avistara na véspera. As encostas de basalto, cuja nudez parecia até então desafiar o próprio tempo, cobriam-se agora de uma vegetação tão abundante que se tornava difícil acreditar que uma única noite tivesse bastado para o seu aparecimento. As ervas subiam até às escombreiras. Fetos agarravam-se às fendas da rocha. Lianas desciam já das cornijas. Aqui e ali, jovens árvores, das quais eu seria incapaz de dizer se tinham nascido poucas horas antes ou vários anos atrás, davam à ilha uma profundidade que ela parecia nunca ter possuído.
Permaneci muito tempo imóvel, sem o menor pensamento...
Como se a floração da ilha vizinha tivesse provocado o abandono do meu próprio espírito...
Tinha deixado de pensar.
Limitava-me a deixar que os meus olhos aceitassem aquilo que viam.
Recordei então alguns relatos encontrados ao acaso das minhas viagens: manuscritos incompletos, diários abandonados, folhas soltas sem princípio, vários dos quais evocavam, quase distraidamente, estas súbitas aparições de vegetação. Nenhum deles se demorava verdadeiramente sobre o fenómeno. Um falava de fetos surgidos antes da alvorada... outro descrevia árvores cujo crescimento ninguém testemunhara... um terceiro parecia nada saber de tudo isso e descrevia as mesmas ilhas como se nunca tivessem conhecido outra coisa senão pedra, vento e aves marinhas.
Ao princípio, julguei estar perante testemunhos imperfeitos.
Com o tempo, outra ideia começou a visitar-me.
E se a sua infidelidade não viesse deles próprios?
Talvez pertencesse ao próprio Arquipélago.
Esse pensamento nunca me abandonara por completo quando reparei no fumo.
Não se elevava de um ponto preciso.
Parecia sair de toda a espessura daquela vegetação súbita, como se as chamas não se tivessem propagado de árvore em árvore, mas tivessem nascido ao mesmo tempo numa multidão de lugares invisíveis. Ainda mal distinguia o incêndio em si; contudo, o fumo já subia com tal força que dava a impressão de sustentar o próprio céu.
Esperei, com os olhos já ardentes e irritados, que o vento o levasse para o largo.
Mas o vento deixara de fazer aquilo que sempre fizera.
Não saberia dizer em que momento compreendi que já não era ele quem conduzia o fogo.
Era o fogo que parecia agora conduzir o vento.
As lufadas de ar que me alcançavam já não tinham nada daquela respiração regular que o mar habitualmente impõe às ilhas. Mudavam bruscamente de direção, interrompiam-se, regressavam, voltavam a cair, como se uma outra atmosfera estivesse lentamente a instalar-se no interior da primeira.
Eu não precisava de conhecer as razões de uma tal perturbação para sentir que alguma coisa, naquela ilha separada da minha por várias milhas de mar, já estava a modificar até o ar que eu respirava.
Levantei os olhos.
A coluna de fumo não parava de crescer.
Não se limitava a subir.
Atraía para si o céu inteiro.

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