Em «Um Escândalo na Boémia»,
de Arthur Conan Doyle, Holmes diz a Watson:
«Você não observou.
E, no entanto, viu.»
Caderno de Félix (primeira parte)
Como tantas vezes, comecei por escrever aquilo que via, ou melhor, aquilo que a minha profissão me ensinara a considerar suficientemente visível para poder ser registado sem demasiados riscos e sem manifestar demasiado… talvez devesse dizer testemunhar… o menor sentimento… em quaisquer circunstâncias… Tanto mais diante de um simples desenho: uma personagem adulta, identificável como Don Carotte, avançando de perfil para a esquerda, de olhos fechados, segurando com a mão direita uma gaiola suspensa, dentro da qual se encontra uma personagem de aparência semelhante, mas de tamanho muito inferior. A mão esquerda acompanha a gaiola sem parecer agarrá-la. Uma corda presa à sua parte superior desce em direção à personagem principal, passa junto do seu pescoço antes de chegar à cintura. As roupas das duas figuras são semelhantes e parecem-me demasiado grandes… Um crescente lunar ocupa o fundo.
Eu poderia ainda assumir esta descrição, e não creio que alguém pudesse seriamente censurar-me por nela ter introduzido fosse o que fosse que não estivesse na imagem… sei apenas agora que ela possui essa espécie de exatidão à qual dediquei boa parte da minha vida profissional e da qual descubro, cada vez mais frequentemente, que pode ser uma maneira extremamente aperfeiçoada de não ver, pois tudo estava ali… desde o início, absolutamente tudo, a gaiola, a corda, o pescoço, o ventre, as roupas, os olhos fechados, e, no entanto, nada começara ainda a germinar no meu espírito demasiado bem ordenado, como se eu tivesse cuidadosamente elaborado o inventário dos instrumentos de uma música cuja primeira medida não tivesse ouvido… nem o mais ínfimo dos acordes.
Já não sei exatamente o que veio primeiro, e talvez fosse falso querer agora restabelecer uma ordem que a própria imagem nunca me impôs. Recordo apenas que, a certa altura, a pequena personagem encerrada na gaiola deixou de ser para mim «uma personagem de aparência semelhante» e se tornou, com uma evidência que quase me constrangeu, o próprio Don Carotte, o que, a princípio, parecia simplificar as coisas e imediatamente as complicava, pois ainda me era possível dizer que Don Carotte carregava aquele que tinha sido… fórmula bastante cómoda, quase cómoda demais, até que as roupas vieram contradizê-la: essas roupas demasiado grandes que o pequeno ser veste são as mesmas que a Criança Lua já vestia, mas são também as do homem em que se tornou, e permanecem sobre ele como se continuassem demasiado grandes, já não apenas demasiado grandes para o seu corpo de criança, mas demasiado grandes para o corpo que, no entanto, passou uma vida inteira a fazer crescer até elas.
Então já não carregava apenas aquele que tinha sido… carregava aquele que era, aquele que talvez sempre tivesse sido e, o que me pareceu ainda mais estranho, aquele em que ainda não se tinha tornado quando essas roupas já o envolviam, de tal maneira que o tempo deixava de se ordenar docilmente atrás e à frente dele, o passado atrás, o futuro adiante, pois eis precisamente que aquilo que fora era carregado diante do seu ventre como aquilo que ainda deve nascer, e que o homem avançava em direção ao que estava atrás de si, levando-o diante de si.
Detivera-me nos seus olhos fechados, naturalmente, e começara por empregar as palavras habituais, interioridade, recolhimento, talvez mesmo memória, até se tornar evidente para mim que aqueles olhos não estavam fechados para melhor olhar para dentro, como tão facilmente se diz, mas porque Don Carotte escutava; e esta constatação, a princípio quase pobre, abriu algo que eu não previra, pois a Criança Lua não falava, ou ainda não falava, mas isso de modo algum significa que estivesse excluída da linguagem, pois muito antes de a boca saber responder o ouvido já recebe, muito antes de a criança conseguir pronunciar um nome já é atravessada por vozes, ruídos, sopros, talvez pelo seu próprio coração misturado com o daquele que a carrega, e compreendi então que Don Carotte, tornado homem e tornado falante, fechava os olhos não para reencontrar as palavras da criança que tinha sido, pois talvez não houvesse nenhuma, mas para tentar ouvir aquilo que essa criança ouvira quando ainda ninguém podia pedir-lhe que o explicasse.
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