Onde se ouve a voz de Igniatius, perdida entre as ilhas e um dos seus desenhos, tornar-se mais firme à medida que as próprias ilhas o são cada vez menos...
Caderno de Igniatius
Não saberia dizer em que momento o fogo deixou a ilha para entrar em mim. Não falo do seu calor, que jamais poderia atravessar uma tal extensão de mar, mas de uma outra maneira de arder, mais lenta, talvez mais antiga, que parecia esperar havia muito tempo que alguma coisa, naquele fumo que subia sem cessar para um céu cuja própria respiração acabava por transformar, consentisse enfim em devolver-lhe um rosto, como se as chamas nunca tivessem ambicionado consumir as árvores, mas apenas ensinar os olhares a reconhecer aquilo que tinham, mais ou menos, deixado de ver.
As palavras que encontrara alguns dias antes num qualquer caderno perdido regressaram-me então com a singular obstinação daqueles viajantes que, depois de terem desaparecido da nossa memória, reencontram, contudo, sem dificuldade, o caminho da sua voz... ou da nossa.
Coluna convectiva... piroconvecção...
Mal conhecia estas palavras e deixei-as passar. Não procurei reter aquilo que tinham querido dizer quando lera as suas definições. Estas, tal como aquilo que eu tinha diante dos olhos, já se perdiam. As palavras, porém, continuavam a avançar. Subiam como subia o fumo, e ocorreu-me de repente que talvez existam palavras... ou línguas... que nunca foram inventadas para explicar o mundo, mas para acompanhar alguns dos seus movimentos até encontrarem, dentro de nós, uma câmara suficientemente vasta para prosseguirem a sua ascensão.
Foi então que os desenhos, sem outra presença além da minha memória, começaram a respirar.
Durante muito tempo julgara-os arrumados entre essas coisas acabadas cuja própria posição num armário acabamos por esquecer, embora continuem, durante a nossa ausência, uma vida de que nada sabemos, semelhantes àqueles livros fechados que prosseguem a sua leitura sem o auxílio de qualquer leitor, esperando apenas que um acontecimento lhes conceda, se não a permissão, pelo menos a oportunidade de voltar a abrir as suas páginas.
Num desses desenhos, em particular, já não revi primeiro as personagens. Vi primeiro o livro. Quase ao centro da imagem que eu tinha — ou talvez eu próprio tivesse — desenhado, esse livro estava aberto. Não sei por que razão essa evidência, esse livro aberto, que eu desenhara tantas vezes sem jamais me deter nele, me comoveu mais profundamente do que todo o resto.
Um livro aberto, seja verdadeiro ou não, não promete apenas uma leitura.
Já aceita... talvez à força... que uma parte de si mesmo lhe escape... ou já lhe tenha escapado.
Renuncia... ou tem de renunciar... a reter as suas próprias páginas.
Oferece-se ao vento com essa confiança desmedida das coisas que sabem que a sua perda continua a fazer parte da sua fidelidade.
Só então reparei que ele — ou melhor, as suas páginas — abrigava um foco cuja chama crescente explorava a imagem inteira.
Como pude ignorá-lo durante tanto tempo?
As chamas não caíam sobre o livro.
Nasciam dele.
Tal como, sobre o oceano, naquele mesmo instante, dançavam as ondas e as chamas, erguendo-se uma ao encontro da outra com uma doçura tão antiga que se tornava impossível dizer se o fogo imitava o mar ou se o mar prosseguia silenciosamente um incêndio iniciado muito antes do nascimento da água.
Quis escolher entre os dois elementos.
Incapaz de distinguir os dançarinos, o meu olhar recusava-se.
As ondas entrelaçadas continuavam a sua lenta rotação.
As chamas respondiam-lhes sem jamais procurar vencê-las.
Pareciam pertencer à mesma respiração da qual o Arquipélago talvez tivesse recebido... ou colocado, num dia muito antigo, a sua primeira pedra.
Também eu entrelaçado com a minha memória dançante, permaneci longamente diante dessa hesitação.
Ou talvez fosse ela que permanecesse diante de mim.
Já não contemplava apenas a ilha.
O meu olhar... afastara-se de mim.
Alguma coisa passava do fumo para os desenhos com uma facilidade que me perturbava mais profundamente do que todas as semelhanças.
Nunca desenhara aquele fogo.
Disso tinha a certeza.
E, no entanto, tornava-se cada vez mais difícil acreditar que as chamas que hoje se elevavam acima do mar fossem estranhas àquelas que, havia tantos anos, continuavam a erguer-se entre as páginas daquele livro que eu me obstinara em acreditar que me pertencia.
Sobre o livro... tal como aqui... as personagens acabaram por aparecer também, não como aparecem as lembranças quando regressam do passado, mas como aquelas ilhas que, em certas manhãs, parecem emergir da névoa, embora nunca tenham deixado de estar ali.
Vi a criança avançar.
Quase não olhei para os dois seres que a esperavam.
A minha atenção permanecia presa àquele movimento tão simples que conduzia todo o seu corpo em direção ao pequeno mundo suspenso diante dele, com essa confiança silenciosa dos seres que ainda ignoram que é possível perder uma direção sem abandonar o caminho que seguem.
Pensei então que os outros dois o iriam deter...
Mas nada fizeram além de dançar.
Não precisavam de fazer outra coisa.
Enquanto continuava a observá-los, incapaz de desviar os olhos dos seus sorrisos irradiando um encantamento que eu não sabia se anunciava uma alegria a partilhar ou se apenas conservava a memória de uma antiga ferida, pareceu-me que certos desvios nunca afastam verdadeiramente aquele que caminha...
Limitam-se a deslocar, quase impercetivelmente, o mundo para o qual ele julgava caminhar.
Esse pensamento atravessou-me como um sopro que passa entre duas chamas.
Depois desapareceu.
Entretanto, o fogo — esse bem real — continuava a subir.
As ondas continuavam também a erguer-se.
E eu permaneci ali, durante muito tempo ainda, suspenso entre a água e o fogo, incapaz de decidir se contemplava uma ilha a arder ou se os desenhos, aos quais julgara ter dado origem outrora, acabavam enfim de descobrir a paisagem que desde sempre esperavam para começar a reconhecer-me.
Já aceita... talvez à força... que uma parte de si mesmo lhe escape... ou já lhe tenha escapado.
Renuncia... ou tem de renunciar... a reter as suas próprias páginas.
Oferece-se ao vento com essa confiança desmedida das coisas que sabem que a sua perda continua a fazer parte da sua fidelidade.
Só então reparei que ele — ou melhor, as suas páginas — abrigava um foco cuja chama crescente explorava a imagem inteira.
Como pude ignorá-lo durante tanto tempo?
As chamas não caíam sobre o livro.
Nasciam dele.
Tal como, sobre o oceano, naquele mesmo instante, dançavam as ondas e as chamas, erguendo-se uma ao encontro da outra com uma doçura tão antiga que se tornava impossível dizer se o fogo imitava o mar ou se o mar prosseguia silenciosamente um incêndio iniciado muito antes do nascimento da água.
Quis escolher entre os dois elementos.
Incapaz de distinguir os dançarinos, o meu olhar recusava-se.
As ondas entrelaçadas continuavam a sua lenta rotação.
As chamas respondiam-lhes sem jamais procurar vencê-las.
Pareciam pertencer à mesma respiração da qual o Arquipélago talvez tivesse recebido... ou colocado, num dia muito antigo, a sua primeira pedra.
Também eu entrelaçado com a minha memória dançante, permaneci longamente diante dessa hesitação.
Ou talvez fosse ela que permanecesse diante de mim.
Já não contemplava apenas a ilha.
O meu olhar... afastara-se de mim.
Alguma coisa passava do fumo para os desenhos com uma facilidade que me perturbava mais profundamente do que todas as semelhanças.
Nunca desenhara aquele fogo.
Disso tinha a certeza.
E, no entanto, tornava-se cada vez mais difícil acreditar que as chamas que hoje se elevavam acima do mar fossem estranhas àquelas que, havia tantos anos, continuavam a erguer-se entre as páginas daquele livro que eu me obstinara em acreditar que me pertencia.
Sobre o livro... tal como aqui... as personagens acabaram por aparecer também, não como aparecem as lembranças quando regressam do passado, mas como aquelas ilhas que, em certas manhãs, parecem emergir da névoa, embora nunca tenham deixado de estar ali.
Vi a criança avançar.
Quase não olhei para os dois seres que a esperavam.
A minha atenção permanecia presa àquele movimento tão simples que conduzia todo o seu corpo em direção ao pequeno mundo suspenso diante dele, com essa confiança silenciosa dos seres que ainda ignoram que é possível perder uma direção sem abandonar o caminho que seguem.
Pensei então que os outros dois o iriam deter...
Mas nada fizeram além de dançar.
Não precisavam de fazer outra coisa.
Enquanto continuava a observá-los, incapaz de desviar os olhos dos seus sorrisos irradiando um encantamento que eu não sabia se anunciava uma alegria a partilhar ou se apenas conservava a memória de uma antiga ferida, pareceu-me que certos desvios nunca afastam verdadeiramente aquele que caminha...
Limitam-se a deslocar, quase impercetivelmente, o mundo para o qual ele julgava caminhar.
Esse pensamento atravessou-me como um sopro que passa entre duas chamas.
Depois desapareceu.
Entretanto, o fogo — esse bem real — continuava a subir.
As ondas continuavam também a erguer-se.
E eu permaneci ali, durante muito tempo ainda, suspenso entre a água e o fogo, incapaz de decidir se contemplava uma ilha a arder ou se os desenhos, aos quais julgara ter dado origem outrora, acabavam enfim de descobrir a paisagem que desde sempre esperavam para começar a reconhecer-me.
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