Onde Don Carotte, depois de ter aprendido que os cientistas dão a certos fenómenos nomes cuja precisão aterradora nada retira à sua beleza — falando de uma coluna convectiva, da piroconvecção, de correntes ascendentes capazes de aspirar o ar até às camadas mais altas da atmosfera e depois devolvê-lo à terra sob a forma de ventos descendentes que, por sua vez, alteram o curso do incêndio — sente erguerem-se dentro de si antigas chamas que julgava para sempre sepultadas...
Caderno de Don Carotte
Descrevem o nascimento de um pirocúmulo, por vezes até de um pirocumulonimbo, essa tempestade gerada pelo próprio fogo, na qual as chamas, o vapor, o gelo, os relâmpagos e o vento acabam por pertencer a um mesmo movimento.
Estas palavras nada me ensinam que o meu corpo já não tivesse começado a compreender naquele dia; apenas dão uma forma mais exata — e mais aterradora — a esta evidência: acontece, por vezes, que um fogo deixa de ser transportado pelo mundo e começa a produzir o seu próprio mundo.
Aquilo que eu sentia não era apenas medo.
O medo tem sempre um objeto.
Sabe daquilo de que se aproxima.
Aquilo que lentamente se apoderava de mim pertencia a uma outra ordem.
O incêndio permanecia na ilha vizinha...
E, no entanto, o céu sob o qual eu me encontrava já não era o mesmo.
O vento mudara.
A luz também.
Eu teria jurado que o próprio mar, tal como eu, respirava de maneira diferente.
Foi então que uma imagem, vinda não sei de onde, atravessou o meu espírito.
Voltei a ver aqueles terrenos vazios onde, poucas horas antes, nada anunciava a menor presença humana; depois, de súbito, erguiam-se mastros, cordas, lonas, carroças, animais, cozinhas, vozes, até que um circo inteiro tomava posse de um espaço que parecia tê-lo esperado desde sempre.
Nunca era uma simples instalação.
Era um mundo que surgia dentro de outro mundo, não para o substituir, mas para lhe impor, durante algum tempo, uma outra maneira de existir.
Resistia a comparar o fogo ao circo.
Limitava-me a reconhecer, sem ainda o compreender, uma mesma potência de aparição.
Desde a manhã, a vegetação brotara da pedra.
Agora, o fogo brotava da vegetação.
E quanto mais contemplava aquela ilha, mais um pensamento, ainda informe, começava a abrir caminho dentro de mim.
Talvez estes dois acontecimentos não fossem tão estranhos um ao outro como pareciam.
Não queria dizer que um causasse o outro.
Uma explicação dessas seria demasiado simplista.
Tinha antes a impressão de que ambos respondiam a uma mesma respiração, escondida sob as antigas escoadas de lava, como se os vulcões, muito depois de as suas crateras se terem calado, continuassem a falar uma língua que só em ocasiões muito raras conseguimos ouvir.
É evidente que eu não possuía prova alguma.
Apenas aquela impressão obstinada de que uma erupção talvez nunca termine verdadeiramente...
De que permanece presente sob a pedra, com uma paciência que nem os próprios séculos conseguem desencorajar...
E de que, em certos dias — dias cuja memória nenhum relato parece capaz de conservar com exatidão —, volta à superfície, ora sob a forma de uma floresta impossível, ora sob a forma de um fogo tão vasto que obriga até o próprio céu a recomeçar de outro modo...
Foi então que me ocorreu uma ideia estranha...
E se a minha vida fosse, afinal, a imagem improvável daquele fogo — demasiado grande para mim?
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