« A profundidade do mar é muito mais desconhecida do que a sua extensão. Mal foram realizados os primeiros sondamentos, poucos e ainda muito incertos. As pequenas ousadias que tomamos à superfície desse elemento indomável, a nossa audácia em percorrer esse profundo desconhecido, pouco representam e nada podem retirar ao legítimo orgulho do mar. Na realidade, ele permanece fechado, impenetrável.»
Jules Michelet, O mar, 1861

Onde, na calma relativa e provavelmente ilusória das profundezas, a baleia partiu há muito tempo. Levado pelos movimentos das correntes e percorrendo infinitos caminhos invisíveis, o Menino Lua, atravessado por essas mesmas correntes, parece esperar. Talvez espere que os remoinhos se dissipem, tal como o nevoeiro se desfaz, deixando novamente, muito lentamente, entrever as profundezas obscuras onde aquilo que ele julga ser um peixe monstruoso aparece e desaparece num tempo que se dilata ao ritmo lento da sua respiração.
Há um erro quase inevitável quando pensamos no oceano: imaginamo-lo imóvel assim que deixamos de ver a sua superfície. Contudo, quanto mais se desce, mais difícil se torna perceber o movimento — e mais completamente ele governa tudo.
Nas profundezas, a água nunca deixa de viajar. Não cai. Também não sobe. Desliza. Troca o seu lugar com outra água que, por vezes há séculos, percorre o mesmo caminho sem jamais conhecer a sua origem nem o seu destino. As correntes avançam com tal lentidão que parecem ter renunciado a toda a pressa. Contudo, essa lentidão engana. À escala de uma vida humana, desloca mares inteiros.
A água fria possui uma gravidade singular. É mais densa. Sem ruído, procura as profundezas como um pensamento procura naturalmente aquilo que ainda ignora de si mesmo. A água mais leve, aquecida algures por um sol que nunca alcança estes abismos, empreende, por sua vez, outra viagem. Assim nascem imensas circulações que não obedecem a nenhuma vontade, mas apenas a uma diferença quase impercetível de temperatura ou de salinidade. Bastam, por vezes, alguns décimos de grau para pôr em movimento massas de água cujo peso ultrapassa toda a imaginação. Estes deslocamentos nada têm do tumulto das ondas. Assemelham-se antes à lenta deriva dos continentes. São geologias líquidas.
Acontece, contudo, que duas massas de água se encontrem sem verdadeiramente se misturarem. Roçam-se durante centenas de quilómetros. Entre elas subsiste uma fronteira quase invisível, onde a densidade muda mais depressa do que as cores alguma vez poderiam mostrar. Quem pudesse permanecer ali sentiria talvez a estranha sensação de atravessar várias estações sem ter dado um único passo. Mais abaixo ainda, o frio deixa de ser uma circunstância; torna-se um modo de ser da própria água. A temperatura varia tão pouco que um décimo de grau adquire a importância que uma montanha teria sobre uma planície. Nada parece mudar. E, no entanto, tudo se reorganiza em torno dessa diferença infinitesimal.
As correntes nem sempre seguem uma linha reta. Curvam-se e dividem-se. Enrolam-se sobre si mesmas como os volutas de um imenso fumo que ninguém poderia ver. Algumas massas de água descrevem espirais de dezenas de quilómetros antes de retomarem o seu percurso. Outras giram tão lentamente que a sua rotação parece pertencer mais ao tempo do que ao espaço. Julgamo-las silenciosas porque o ouvido não as consegue escutar. No entanto, possuem uma textura. Certas águas parecem espessas sem verdadeiramente o serem. Outras dão a impressão de se deixarem atravessar com maior facilidade. Essa sensação não provém da sua matéria, sempre idêntica, mas das ínfimas diferenças de velocidade que separam duas camadas vizinhas. A água desliza sobre a água como duas placas de vidro separadas por uma película invisível.
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