Onde se torna evidente a deriva de Igniatius. Ela conduz-no para uma perceção em que tudo começa a ultrapassá-lo. Preso nos vapores de um pântano imaginário, errando de desenho em desenho, Igniatius já não sabe verdadeiramente onde está nem que está a alucinar.
Caderno de Igniatius
O céu está em cima, eu sei, e, apesar disso... vejo-o em baixo. A água é quase apenas uma superfície, tão fina quanto infinita... Um ramo da árvore mergulha no abismo, e o espírito, que habitualmente corre a toda a velocidade para voltar a pôr tudo no seu lugar, demora-se desta vez. Quando finalmente chega, sem fôlego, descubro que a razão já não tem fundações. Fica ali, inútil, enquanto a água começa a tremer.
Então nascem as estrelas. Não no céu. Centenas, milhares, à superfície da água. Poeiras solares levantadas por cada ondulação, por cada movimento. Nenhuma permanece. Cada uma brilha apenas o tempo suficiente para chamar os olhos e apaga-se no momento em que o olhar a alcança. Outra surge noutro lugar, duas aproximam-se, quatro respondem umas às outras. Uma figura forma-se e desfaz-se imediatamente. O ribeiro transforma-se num firmamento enlouquecido que fabrica constelações mais depressa do que a noite poderia compreendê-las.
O olhar corre atrás delas. O corpo permanece algures na margem e a luz começa a entrar nele. Entra também na água, nos olhos, nas folhas molhadas, na pele das pedras. Salta de uma superfície para outra com uma espécie de impudor. O das coisas que nunca aprenderam que deviam permanecer no seu lugar. Em breve o verde já não permanece nos fetos; irradia à sua volta. Estende-se pelo próprio ar, preenche os intervalos, enquanto a humidade já não está apenas sobre a pele, mas na própria luz. O ruído da água já não vem de um lugar que o ouvido pudesse alcançar. Passa pelas costas, pelo peito, debaixo dos pés, pelos ramos.
A floresta estende-se sem que cresça uma única árvore. Uma folha aproxima-se sem se mover. Cada nervura está em movimento. Cada pequeno dente da margem adquire uma importância monstruosa. Um minúsculo buraco deixado por um inseto abre uma boca negra. Uma gota minúscula contém as árvores e o céu. E, nesse céu, o rosto ausente daquele que a olha. A folha inteira, sobre a qual desenho, já não consegue conter esta infinidade desenfreada de detalhes. Aquilo que antes permitia dizer simplesmente feto deixou de fazer o seu trabalho, e o feto explode em milhares de coisas igualmente presentes.
A floresta liberta tudo aquilo que retinha. Os musgos mostram as suas florestas minúsculas. As pedras abrem as suas crateras. As cascas desenham continentes. Cada coisa se abre para outra escala onde recomeça a mesma prodigalidade. Já não há grande nem pequeno, pois uma gota contém luz suficiente para conter um céu. Um musgo contém relevo suficiente para ter as suas montanhas, e uma nervura de folha bifurcações suficientes para conduzir para fora de qualquer mapa.
Os pés voltam a andar. Fogem. Sabem alguma coisa que o resto ainda ignora, procuram terra firme dentro deste transbordamento, batem numa pedra, escorregam, recuperam, aceleram, mas a encosta decide o ritmo, as raízes erguem-nos, os ramos obrigam a cabeça a baixar, uma liana prende o ombro, uma pedra desloca a bacia, e em breve o corpo já não é um viajante na garganta, mas uma peça móvel desta imensa mecânica em que cada coisa empurra a seguinte e recebe em troca aquilo que a empurra.
A mão encontra um tronco. A casca entra nela. Entra realmente, porque a rugosidade já não está deste lado ou daquele; existe no próprio contacto. Um contacto dilatado até ocupar todo o espaço. A palma pressiona a madeira, a madeira pressiona a palma. Quem começou? Na encosta, foi o corpo que se inclinou ou foi a encosta que inclinou o corpo? O corpo estendeu o braço. O tronco travou a queda. A pele recebeu a casca. A casca recebeu o calor. Nesta cadeia torna-se impossível encontrar o soberano escondido que teria decidido o conjunto.
Os dedos deixam o tronco. Uma mão flutua por um instante diante dos olhos. A quem pertence? A alguém. Isso deve ser verdade. Mas agora é preciso lembrar-se disso. O medo chega.O medo de já não se lembrar. Chega muito tarde. Quando chega, o corpo já começou a correr.

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