lundi 16 février 2026

Existir

 


— Diga-me, nós existimos?
— Vejo o que você quer dizer… enfim…
— Quando digo existir, não me refiro a um estado que eu possua, nem a uma propriedade que eu pudesse acrescentar ao que já sou.
— Do que você está falando?
— Falo de um acontecimento que me advém, e que não cessa de me advir.
— Então… de um acontecimento que lhe acontece o tempo todo!
— Não… existir… como dizer… eu sempre o descubro depois…
— Depois de quê?
— No próprio abalo pelo qual algo me atingiu e me deslocou…
— Deslocou para onde?
— Para fora de qualquer posição já adquirida.
— Mas antes disso?
— Nunca se começa existindo. Nós existimos ao sair.
— Ao sair de quê?
— Do que fazia as vezes de equilíbrio, de forma, de evidência.
— A existência não seria, então, uma continuidade!?
— Ela é uma irrupção. Ela surge quando aquilo que nos sustentava deixa de ser suficiente…
— Perdoe minha ignorância… mas eu não o acompanho!
— Quando o mundo, de repente, já não pode mais ser reconduzido pelos esquemas que o ordenavam para nós.
— Agora sim… estou acompanhando… você fala do nosso mestre!
— De modo algum… estou num espaço que não me esperava. Existir, para mim, não é estar ali como uma coisa entre as coisas. É ser colocado em jogo pelo que aparece.
— Mas… nosso mestre poderia dizer… que fez isso!
— Você não compreende: algo se apresenta, e nessa própria apresentação, eu sou… como que chamado. Não observo o acontecimento: sou tomado por ele. A existência começa no instante em que já não posso me manter à distância, em que a separação objetiva se desfaz, em que o mundo me olha tanto quanto eu o olho.


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