dimanche 12 avril 2026

(27) A abracadabrante história da Criança Lua

 

«Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! E eis que estavas dentro, e eu fora, e era aí que te procurava; e, na minha fealdade, lançava-me sobre as coisas belas que criaste. Estavas comigo, e eu não estava contigo; retinham-me longe de ti essas coisas que, se não estivessem em ti, não existiriam. Chamaste, gritaste, e rompeste a minha surdez; brilhaste, resplandeceste, e dissipaste a minha cegueira; derramaste o teu perfume, respirei-o, e suspiro por ti; saboreei-te, e tenho fome e sede; tocaste-me, e ardi pela tua paz.
Quando me unir a ti com todo o meu ser, já não haverá para mim dor nem fadiga, e a minha vida será viva, toda cheia de ti. Mas agora, porque aquele que tu enches, tu o elevas, e eu ainda não estou cheio de ti, sou um peso para mim mesmo. As minhas alegrias, que deveriam ser choradas, combatem com as minhas tristezas, que deveriam ser celebradas, e não sei de que lado está a vitória. Ai de mim! Senhor, tem piedade de mim.»
 
Augustine of Hippo, Confissões
 
 
 
 
 
Para a Criança Lua, a verdade não é um objeto que se alcança, mas uma presença à qual se abre, e que exige uma transformação interior. Ela não se dá àquele que a procura como um saber, mas àquele que se torna capaz de a receber. Ele sabe tudo isto muito antes de poder pensá-lo… e, evidentemente, antes de poder dizê-lo.
 
 
Cadernos da Criança Lua
 
Há, na própria ideia de verdade, uma luz que parece chamar a sua própria difusão. Uma verdade, acredita-se primeiro, é feita para ser trazida à luz, para ser dita, partilhada, oferecida a todos como uma evidência finalmente conquistada à sombra. Mas essa evidência é enganadora. Pois toda a verdade não é apenas aquilo que ilumina; é também aquilo que queima.
O que deve ser interrogado não é tanto a verdade em si mesma, mas a capacidade daquele que a recebe. Uma verdade nunca existe só: supõe um olhar que a sustenta, um espírito que a deixa advir sem nela se dissolver. Ora, certas verdades excedem essa capacidade. Não se recusam por capricho ou por ciúme dos iniciados; retiram-se porque exigem, para serem suportadas, uma transformação daquele que delas se aproxima.
Assim, o segredo não nasce, antes de mais, de uma vontade de dissimulação. Nasce de um desfasamento entre o que é e o que pode ser acolhido. Não é a verdade que se esconde; é o olhar que ainda não pode sustentá-la sem vacilar. Há aqui uma forma de pudor ontológico: o próprio real se retira diante daquilo que, em nós, não poderia recebê-lo sem se desfazer.
 
 

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