Sobre o mar, em torno das ilhas do Arquipélago, batidas pelas tempestades, seria isso um espelho erguido diante do oceano das nossas incertezas… Um teatro de fortuna, sim, mas vivo. Povoado de fragmentos e de fábulas.
Onde o próprio vento se torna personagem ou autor de uma palavra errante através dos mundos.
Lucian, seguindo as pegadas de Don Carotte, acompanhando as raízes meio engolidas, encontrou-se por sua vez diante do Leviatã… Sim. É preciso então tornar a cena ainda mais sombria, e menos dramática no sentido teatral do que noturna no sentido em que algo se mostra ao retirar-se, onde a presença só se oferece com a sua parte de ausência, onde o sujeito não encontra um conteúdo oculto, mas a própria prova de um visível que jamais se entrega por inteiro.
O Leviatã fala primeiro:
— Vede, Lucian?
— Não sei o que devo ver…
— Não se trata de dever…
— A questão, vede… não é o que vejo… mas que vejo eu… Quem sois vós?
Lucian, diante do monstro, não perdeu a razão e não demonstra o medo que deveria sentir…
Retoma então, infletindo o seu discurso noutra direção.
— O que aconteceu durante o vosso encontro com Don Carotte?
— Antes de mais… quem vos disse que o encontrei?
— Está escrito nos seus cadernos… que me foram trazidos por Igniatius.
— Igniatius disse-vos que também ele veio até mim?
— Não… ainda não…
— Para voltar à vossa pergunta… não, isso não correu bem. Recordo-me perfeitamente: propus-lhe um enigma… segundo o protocolo… como convém…
— E depois?
— Não refletiu muito tempo… antes de brandir o seu bastão em todos os sentidos… persuadido de que era uma espada… era, confesso-vos, perfeitamente patético, e foi-me necessário — digo-vos isto com muita modéstia — muita habilidade e quase magia… para fazer, dentro e a partir de todo esse movimento de linguagem, palavras que ele pudesse ouvir.
— E o que compreendeu ele?
— Tudo ao contrário… mas…
— Que resultou disso?
— Persuadido de que podia empurrar-me, esgrimindo sem cessar, julgando vencer fogos que só ele podia ver, entrou… enfim, ele está persuadido disso… mas seria mais justo dizer que, tendo-me na ponta da língua, bastou-me um simples recuo para que se encontrasse, como uma criança… no meu palácio…
— Parai… parai, por favor… Acabais de dizer… falais-me de uma criança… Será questão de…
Não consegue terminar a frase, sem encontrar as palavras.
— Essa criança de quem se fala não se mantinha… não se mantém… apenas na linguagem… como vós… num destino…
Como qualquer um pode compreender, Lucian está profundamente desorientado. Diante desse enigma, por mais que reflita, as palavras e as ideias voam à medida que escuta as palavras do Leviatã… que prossegue… que o persegue… e é assim que ele também se encontra… a palavra parece-lhe bem escolhida… ele também penetrando pela língua num palácio cintilante de mil fogos… e é das profundezas, como se fossem as suas próprias, que a voz prossegue… ou o persegue…
— Ele mantém-se também no visível como num enigma que nunca se resolve em objeto. O que vê, o que acredita ver, o que pressente por detrás do que vê, tudo isso não compõe um mundo de objetos simplesmente colocados diante dele.
Como pode o Leviatã formular tão bem aquilo contra o qual eu próprio embato ou… no melhor dos casos… apenas contorno?
— O visível, para ele, nunca está pleno. É atravessado por um retraimento. Deixa sempre aparecer que há, no próprio coração do que aparece, algo que não chega à presença.
É por isso que, de dia como de noite, essa criança é noturna.
Já não há dúvida no espírito de Lucian: ele fala da Criança Lua…
— Isso não significa que ela pertença à noite como a um símbolo fácil, nem que seja uma figura romântica da sombra. Digo que ela habita uma modalidade do aparecer em que aquilo que se mostra não abole aquilo que se retira. Nunca vê simplesmente coisas. Vê coisas que se afastam um pouco de si mesmas. Vê formas que parecem vir de um fundo mais antigo do que o seu contorno. Vê, no mundo, esse tremor discreto graças ao qual o visível deixa entender que possui um reverso que não está algures fora dele, mas nele próprio.
É aqui que a verdade deve ser retomada.
Pois se as verdades se dizem, se organizam, se transmitem, a verdade talvez não seja outra coisa senão essa relação sempre inacabada entre o que aparece e aquilo que, nessa própria aparição, permanece inaparecente. As verdades pertencem ao lado do que pode ser fixado. Recortam um conteúdo, asseguram-no, tornam-no disponível. A verdade, porém, não é aquilo que se fixa. Ela mantém-se na própria vibração através da qual toda fixação deixa escapar algo de essencial.


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