
Onde se vê que verdadeiramente poderoso é aquilo que pode ser, mas também não ser. A potência não é o contrário da impotência... ela contém em si a sua própria possibilidade de retraimento. Talvez seja por isso que permanece sempre mais vasta do que o ato que a realiza. Onde se vê também, durante a sua segunda viagem pela floresta, Dom Cenoura e Sangue Quente maravilharem-se, com uma ingenuidade quase infantil, perante o mundo que os acolhe.
Excerto do diário de Dom Cenoura
Pouco antes do crepúsculo, e antes de termos conseguido reconhecer fosse o que fosse da nossa viagem anterior, a floresta erguia-se diante de nós como uma arquitetura antiga, indecifrável e soberana. Sem sentirmos a menor inquietação, tínhamos, contudo, a estranha impressão de estar suspensos no tempo. Parecia-nos que nada fora deixado ao acaso naquele emaranhado que, noutras circunstâncias, nos teria mergulhado numa inquietante reverie. Não era, porém, esse o caso aqui, neste mundo onde, sem que o soubéssemos, a nossa própria sombra havia desaparecido. Cada estrato de vegetação, cada liana caída como uma corda suspensa, cada musgo cobrindo as pedras possuía a sua lógica, o seu lugar, o seu papel na espessa harmonia do mundo vivo.
Uma observação paciente revelava pouco a pouco a sua estrutura, e nem Sangue Quente nem eu nos privávamos desse exercício. As árvores seculares, direitas como colunas, elevavam os seus troncos até alturas vertiginosas; as copas encontravam-se no alto, formando uma abóbada quase hermética. A luz, rara e preciosa, mal conseguia atravessar a folhagem, filtrada por miríades de folhas sobrepostas, transformando-se num pó dourado, levemente esverdeado, como suspenso no ar húmido. Aos nossos pés, as raízes desenhavam labirintos. Algumas eram tão espessas quanto braços humanos; outras, tão finas quanto filamentos nervosos, revelando a floresta como um único e imenso organismo subterrâneo.
Também os sons obedeciam à sua própria lógica: o grito distante de uma ave, uma gota de água caindo numa concavidade da rocha, o roçar de alguma coisa invisível no meio da vegetação cerrada. Mas, no centro desse mundo, havia o silêncio. Um silêncio vivo, que parecia escutar, vigiar, sustentar a respiração.
Quanto à relação entre Sangue Quente e eu, exerceu sobre ambos um efeito profundamente benéfico. Durante mais de metade do percurso, que foi muito longo, trocámos apenas umas poucas palavras... enquanto uma lua delicada e resplandecente, atravessando a copa das árvores, tomava serenamente o seu lugar no céu.
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