Onde continuamos a ver, o que já não deveria surpreender-nos muito... que, paralelamente, várias histórias se desenrolam ao mesmo tempo. Assim, Lucian, segundo informações que temos diante dos olhos... e que ele não tem... pareceria estar a ser esperado. A menos que a nossa interpretação tenha sido corrompida pela nossa própria expectativa de leitores.
Don Carotte, com as mãos nas ancas, bate com o pé no chão como um homem que espera uma explicação, um milagre ou um cavalo, e que não obtinha nenhuma dessas coisas.
Fixa a minúscula criatura azul-esverdeada, que acabara de se instalar displicentemente perto dele, sobre um minúsculo ramo de folhas recurvadas. O animal mastiga, de olhos semicerrados, como que absorvido num misticismo digestivo. Um sopro ligeiro mal chega a levantar os pelos rígidos da sua nuca.
– Enfim, Sang Chaud... diz Don Carotte, num tom exasperado, expliquemos as coisas com calma. Como queres que um animal tão pequeno, tão vegetalmente inconsistente, possa transportar um cavaleiro, e não um cavaleiro qualquer! Um cavaleiro andante, encouraçado de palavras... certamente invisível aos vossos olhos e à nossa época... mas carregado de glória, lastrado de destino?
Sang Chaud pigarreia, com o ar de quem não tem inteira certeza de que deva responder.
– E além disso! prossegue Don Carotte, erguendo um dedo no ar saturado de húmus, tu próprio dizes que eles nunca podem descer da árvore! Que haveria uma lei! Um tabu! Uma proibição de natureza mítica, cósmica, botânico-teológica, e que, se o fizerem, eles...
(Engole em seco.)
– ...perdem a sombra!
Sang Chaud acena lentamente com a cabeça, os braços cruzados sobre o ventre, como se já saboreasse a resposta antes mesmo de a formular.
– É exacto, meu senhor. Diz-se nos velhos relatos, que ninguém jamais escreveu, mas que toda a gente conhece... enfim... deveria conhecer... que um burro arborícola que ponha os cascos em terra firme perde imediatamente a sua sombra. E talvez mais alguma coisa...


Aucun commentaire:
Enregistrer un commentaire