« Aliás, esses viajantes vulgares ter-se-iam interessado menos do que eu se, diante deles, alguém tivesse pronunciado — e apesar da notoriedade adquirida por alguns — os nomes daqueles habitués fiéis que eu me espantava de ver continuarem a jantar em sociedade, quando vários deles já o faziam, segundo os relatos que eu ouvira, antes do meu nascimento, numa época simultaneamente bastante distante e bastante vaga para que eu fosse tentado a exagerar-lhe a distância. O contraste entre a continuação não apenas da sua existência, mas da plenitude das suas forças, e o desaparecimento de tantos amigos que eu já vira, aqui ou ali, sumirem-se, dava-me esse mesmo sentimento que experimentamos quando, na última edição dos jornais, lemos precisamente a notícia que menos esperávamos, por exemplo a de uma morte prematura e que nos parece fortuita porque as causas de que ela é o desfecho nos permaneceram desconhecidas. Esse sentimento é o de que a morte não atinge uniformemente todos os homens, mas de que uma vaga mais avançada da sua subida trágica arrasta uma existência situada ao nível de outras que as vagas seguintes pouparão ainda por muito tempo. Veremos, de resto, mais tarde, como a diversidade das mortes que circulam invisivelmente está na origem desse inesperado particular que apresentam, nos jornais, as necrologias. Depois eu via que, com o tempo, não só dons reais, que podem coexistir com a pior vulgaridade de conversa, se revelam e se impõem, mas também indivíduos medíocres chegam a essas posições elevadas, associadas, na imaginação da nossa infância, a alguns velhos célebres, sem que pensemos que o seriam, certo número de anos mais tarde, os seus discípulos tornados mestres e inspirando agora o respeito e o temor que eles próprios outrora sentiam. »
Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, Sodoma e Gomorra, NRF, edição de 1919, tomo 10
Onde Félix poderia começar a suspeitar de que o seu próprio pensamento se tornou agora um dos motores dessa “circulação”... sem ainda se aperceber disso claramente.
Onde ficamos a saber que Félix viveria uma verdadeira experiência à medida que avança pelos cadernos, até que a sua leitura adquira, para ele, a consistência de uma geografia real.
Caderno de Félix
Já não sei exactamente em que momento comecei, nos desenhos que Lucian me envia, a reparar na presença dos papagaios.
Talvez devesse retomar esses desenhos e os cadernos pela ordem, admitindo que haja uma, uma vez que o da Criança Lua parece por vezes preceder o de Lucian, que no entanto parece comentá-lo, enquanto Igniatius relata coisas que afirma saber por Lucian e Don Carotte, de quem já não sei muito bem se vem antes ou depois dos outros, atravessa vários dos seus relatos com aquela facilidade particular que certas personagens têm de se encontrar algures antes mesmo de quem as conta ter tido a ideia de as colocar lá. Seria preciso retomar também os desenhos, colocá-los lado a lado, verificar as datas quando as há, o que é perfeitamente excepcional, comparar as tintas, os papéis, as retomadas, e foi o que fiz, naturalmente, com aquela obstinação profissional que outrora julgava proteger-me das hipóteses demasiado sedutoras... mas chega um momento em que a acumulação das precauções produz ela própria uma espécie de vertigem, porque, à força de seguir separadamente cada pista, acabamos por descobrir que todas desembocam num território cujos limites nenhum mapa indica exactamente.
E, de repente, os papagaios estavam lá... e continuam lá... Não em toda a parte, evidentemente, o que seria quase tranquilizador. Aparecem em vários cadernos, por vezes apenas mencionados, por vezes envolvidos em conversas que ninguém parece achar tão surpreendentes como eu, e surgem também em certos desenhos, na curva de um ramo, sobre uma balaustrada, por cima de uma cena ou ligeiramente afastados, com aquela maneira que têm os pássaros representados de parecer olhar para quem os olha mais do que para aquilo que se passa à sua volta. Eu poderia aceitar que Igniatius os tivesse tomado de Lucian, que Lucian os tivesse encontrado junto da Criança Lua, que Don Carotte tivesse depois retomado aquilo que já circulava entre eles; seria até a explicação razoável, aquela que provavelmente deveria escrever à margem antes de fechar os dossiês, mas essa explicação pressupõe precisamente aquilo que já não consigo estabelecer: quem viu o quê primeiro, quem leu quem, quem conhecia a existência dos outros cadernos e, sobretudo, como certas aparições se respondem umas às outras quando me é impossível encontrar a passagem pela qual poderiam ter sido transmitidas. Digo « transmitir-se » e apercebo-me imediatamente de que a palavra já começa a decidir em meu lugar.
Pois há alguns dias — algumas semanas talvez, conto bastante mal o tempo quando permaneço durante muito tempo diante destas páginas... Detenho-me um instante diante de uma ideia... e outra regressa, e quanto mais gostaria de a manter à distância para a poder examinar correctamente, mais ela se parece com aqueles rios que vi outrora nos mapas e cuja largura se torna tal à aproximação do oceano que já não sabemos em que ponto exacto o rio deixa de ser rio e o mar começa a ser mar. Encontro-me agora nesse estuário quase adormecido onde a água parece ter perdido toda a pressa, onde as correntes se alargam entre bancos de lodo e ervas submersas, onde braços secundários se separam do canal principal para regressarem muito mais adiante sem que seja possível dizer se se perderam ou se conheciam simplesmente um caminho que nós ignorávamos, e, no entanto, sob essa lentidão imóvel, ainda sinto alguma coisa correr. Sinto-a verdadeiramente. Não é uma comparação que construo a partir da minha cadeira... Sob essa água espessa e quase imóvel, alguma coisa se lembra.
O rio lembra-se da sua juventude. Vejo-o descer das montanhas onde ainda não passava de água gelada surgindo entre as pedras, primeiro fio transparente mal bastante largo para envolver uma raiz, depois torrente que reúne outras águas, salta sobre os blocos, precipita-se por ravinas cujas paredes se aproximam por cima dele até deixarem entre si apenas uma estreita rasgadura de céu; e eu desço com ele, sinto sob os meus pés a rocha tornar-se lisa, quase negra, o ar carregar-se de uma poeira fria arrancada às cascatas, enquanto as paredes, cobertas de líquenes amarelos, musgos espessos e fetos agarrados a fissuras onde nenhuma mão humana poderia chegar, se erguem de ambos os lados como as muralhas de um mundo que nunca teria precisado de nós.
Mais abaixo, a torrente desaparece.

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