« Tornou-se impossível […] fazer da escrita um objeto que possa ser estudado por outra via que não a própria escrita. »
Philippe Sollers, « Programme », Tel Quel, n.º 31, 1967
Onde Félix volta a pensar naquela frase que lhe regressara: por que razão escrevemos, afinal, senão para escapar à prisão do eu e às suas banalidades?*
* Gabriel Josipovici, Moo Pak, Les nomades-Quidam éditeur, p. 20
Caderno de Félix
Creio que a tinha compreendido depressa demais, imaginando uma espécie de evasão, como se escrever consistisse em deixar para trás o indivíduo que somos para ir respirar algures onde ele já não estivesse. Isso parece-me agora demasiado simples. Lucian continua a ser Lucian quando desenha, Igniatius continua a ser Igniatius quando inventa, e, no entanto, alguma coisa acontece que já não pode ser reduzida àquilo que um ou outro sabia, queria ou julgava ser. Talvez, portanto, não seja do eu que escapamos, mas da obrigação de lhe obedecer continuamente. Talvez seja aí que esteja a prisão… nessa maneira que temos de regressar incessantemente aos mesmos caminhos porque os reconhecemos, de produzir os pensamentos que convêm àquele que sabemos ser, de reencontrar até naquilo que nos espanta a confirmação discreta do que já havíamos decidido. Até as nossas estranhezas acabam por se tornar familiares. Podemos repetir-nos durante muito tempo acreditando que nos aprofundamos, talvez até com virtuosismo suficiente para que ninguém, começando por nós próprios, perceba que continuamos a girar dentro da mesma divisão… Mas uma personagem pode abrir uma porta. Não porque seja independente do seu autor, fórmula que agora me parece quase tão ingénua como aquela que faria dela sua propriedade, mas porque, uma vez suficientemente envolvida na sua própria existência, impõe consequências que aquele que lhe deu início não previra inteiramente. Torna-se uma nova exigência. Já não se pode fazê-la fazer seja o que for sem a perder. É preciso começar a tê-la em conta, e essa estranha necessidade obriga aquele que escreve ou desenha a pensar a partir de um lugar que não ocupava antes de a ter criado.
Talvez tenha sido isso que aconteceu com Pinocchio l’Autre. De tanto o seguirem, talvez tenham chegado ao ponto em que já não podiam continuar a segui-lo sob aquela forma… e, em vez de voltarem para trás, deixaram o caminho prosseguir. O Menino Lua teria então nascido dessa fidelidade paradoxal: não a fidelidade a uma personagem que fosse preciso conservar, mas àquilo que lhe acontecia e que exigia precisamente que ela deixasse de ser conservada.
Olho agora para o seu casaco demasiado grande, para os seus pés descalços, para aquele chapéu que lhe cai sobre o rosto, e pergunto-me quantas dessas coisas foram verdadeiramente « escolhidas ». A própria pergunta se torna quase embaraçosa. Claro que foram escolhidas, pois uma mão as traçou; mas talvez exista um momento do trabalho em que escolher já não significa selecionar entre possibilidades previamente conhecidas. O desenho anterior torna certas coisas necessárias, uma proporção chama outra, uma imperfeição torna-se fecunda, uma forma entrevista quase por acaso começa a insistir, e aquele que desenha descobre-se a reconhecer alguma coisa que não sabia que procurava.
Reconhecer aquilo que nunca se viu: eis outra frase de que eu teria desconfiado noutros tempos e que, no entanto, sou obrigado a preservar aqui. Pois, se Lucian e Igniatius se tivessem limitado a exprimir aquilo que já traziam dentro de si, eu deveria poder, com paciência suficiente, reconduzir cada uma das suas personagens a uma intenção, a uma recordação, a um medo, a algum velho conteúdo de que o desenho seria apenas a tradução. Sei demasiado bem fazer isso. Cheguei mesmo a ganhar a vida fazendo-o, com prudência suficiente para não lhe chamar redução. Mas quanto mais observo aquilo que se produziu entre Pinocchio l’Autre e o Menino Lua, mais essa explicação me parece falhar o essencial, que talvez não seja aquilo que eles colocaram nas suas personagens, mas aquilo que as suas personagens lhes permitiram encontrar.
Fabricaram, com aquilo que eram, alguma coisa que os obrigava a já não serem exatamente aquilo que eram… E escrevo esta frase… sentindo que ela já se volta para mim. Porque, há algum tempo, faço com eles a mesma coisa. Julgava observar Lucian, compreender Igniatius, estabelecer aquilo que tinha circulado de um para o outro, e eis que me surpreendo a seguir os seus gestos como Lucian seguia os de Igniatius, a retomar os seus desenhos nas minhas próprias frases, a deixar o Menino Lua entrar neste caderno quando eu pretendia apenas explicar de onde ele vinha. Começo até a perguntar-me se compreender alguma coisa não consistirá sempre, pelo menos em parte, em permitir-lhe modificar o lugar a partir do qual procurávamos compreendê-la.
Isso inquieta-me menos do que antigamente. Ou melhor, a própria inquietação mudou de natureza.
Já não tenho diante de mim o perigo de me perder naquilo que estudo, como se o meu primeiro dever fosse preservar intacta a distância que me permitiria saber quem observa e quem é observado. Descubro outra possibilidade: a de essa distância poder deslocar-se sem desaparecer, e de esse deslocamento ser precisamente aquilo que finalmente me permite ver.
Talvez Lucian e Igniatius nunca tenham concebido as suas personagens no sentido em que eu entendia essa palavra. Talvez tenham começado alguma coisa, deixado que ela agisse durante tempo suficiente, e depois se tenham encontrado diante de uma forma que continha mais possibilidades do que aquelas que nela haviam conscientemente colocado. Pinocchio l’Autre teria então sido menos o predecessor do Menino Lua do que o lugar da sua passagem, tal como o próprio Menino Lua poderá não ser senão o lugar provisório onde alguma coisa continua a procurar uma forma.
E de repente compreendo por que razão esta história da prisão do eu me toca muito mais diretamente do que eu teria desejado.
Não se trata de nos abolirmos, nem de nos tornarmos outro, nem sequer de esperar alcançar algum improvável exterior onde eu deixaria de ser Félix. Talvez baste que alguma coisa em que participo se torne suficientemente real para que eu já não possa impor-lhe inteiramente os meus antigos hábitos. Então o eu permanece, mas deixa por um instante de ser o guardião que possui todas as chaves.
Eu julgava estudar a maneira como Lucian e Igniatius tinham criado as suas personagens.
Começo a suspeitar que aquilo que sobretudo haviam descoberto, graças a elas, era como deixar uma criação conduzi-los até onde nenhum dos dois teria sabido ir sozinho.
E se continuo a escrever esta noite, talvez já não seja apenas para registar essa descoberta.
É para ver até onde ela me conduzirá.
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