Onde, aproveitando a viagem de Lucian, nenhuma fronteira traçada pela perceção obrigava já o real… e onde… se estivermos atentos, nos aparece um fenómeno contido na própria imagem… ela não está presa ao nosso recorte fotográfico do instante. Uma imagem pode fazer coexistir vários momentos ou, mais subtilmente, fazer surgir um acontecimento central com o seu “antes” ou o seu “depois” imediato. Assim, o paquete, tal como o oceano, depois de ter sido mantido à distância pelo aço, encontrava-se ainda dividido pelo cálculo. Tinham-lhe sido atribuídos limites, compartimentos, quase câmaras, e enquanto permanecesse dentro daqueles que para ele haviam sido previstos, nada deveria acontecer que a técnica não pudesse conter.
Esta maneira de repartir aquilo que, no exterior, não conhecia separação alguma recordava ainda a obra silenciosa da outra arquitetura, aquela que, para não ser submersa pela incessante profusão do mundo, também ela tinha de traçar fronteiras onde nada as havia necessariamente traçado por ela, distinguir uma forma do seu fundo, um ruído entre os outros, um movimento na desordem aparente de todos os movimentos, reconhecer aqui uma coisa, ali outra, e depois mantê-las separadas durante tempo suficiente para que se tornasse possível pensar que cada uma delas existia por si. Sem esta faculdade de recortar, o mundo talvez fosse tão inabitável para o espírito como o oceano o era para o corpo. Mas havia, nessa própria necessidade, uma estranha afinidade com as divisórias do paquete, pois aquilo que permitia não ser invadido assentava precisamente na certeza de que certas coisas podiam permanecer do outro lado.
Ora, nenhuma fronteira traçada pela perceção obrigava mais o real do que as paredes de aço obrigavam o mar a reconhecer o nome do compartimento contra o qual vinha bater. O cérebro podia chamar objeto àquilo que conseguira destacar do que o rodeava, memória àquilo que separara do presente, perigo àquilo que aprendera a distinguir do resto, e essas divisões eram suficientemente eficazes para que por vezes se esquecesse que eram também uma maneira de tornar praticável aquilo que, antes da sua intervenção, não se apresentara sob nenhum desses nomes. A sua potência vinha em grande parte daí… não apenas receber, mas organizar ou conservar… ou aproximar… separar… transformar a imensa continuidade daquilo que acontece num mundo onde alguma coisa pode ser reconhecida, esperada, evitada, procurada. No entanto, tal como no navio, a própria eficácia do compartimento podia um dia levar a acreditar que aquilo que fora distinguido jamais comunicaria com aquilo de que havia sido separado.
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