dimanche 6 septembre 2026

(201) A abracadabrante história da Criança Lua


Onde Don Carotte, enquanto Lucian prossegue o seu caminho, tem de suportar ligeiríssimas afrontas da parte daqueles sobre os quais julgava possuir uma certa autoridade…

— O mais valente deve humilhar-se diante daquilo que o põe à prova, pois ninguém conhece o fim de um caminho antes de ter caído ou sido coroado.

— Não me faças rir, Sang Chaud… Nem todos podem ser Chrétien de Troyes!

— Não rias, cavaleiro… se o teu corcel te parece franzino… muitas vezes a montada mais humilde leva mais longe do que o mais orgulhoso dos corcéis. Pois a grandeza não está naquilo que montas, mas naquilo que aceitas seguir.

O leitor atento terá reparado num tratamento por tu muito ligeiramente subversivo.



Don Carotte franze o sobrolho; não cessa de pensar e repensar no facto de os burros poderem perder mais do que a sua sombra…

— Mais? Que queres dizer com “mais”? O que seria esse mais… que ultrapassaria a sombra?

— Bem… houve outrora uma lenda acerca de um burrinho temerário que desceu para seguir uma folha caída, julgando-a ainda viva. Diz-se que perdeu não apenas a sombra, mas também a memória, depois a forma, e que acabou transformado numa mancha verde sobre uma pedra tépida… Mas são apenas histórias de contos, naturalmente.

O suposto cavaleiro dá alguns passos, agitando os braços, pisando a erva da clareira.

— Portanto! exclama. É suposto eu tomar por montada este animal minúsculo, que não pode carregar-me, que não deve seguir-me e que, se me seguir, corre o risco de se reduzir a uma mancha? É esse o teu grande plano, ó guia dos matagais?

Volta-se num gesto teatral para Sang Chaud, que mal sorria, embora o suficiente para que se notasse.

— E se eu montar nele? Se exigir que me leve em altas aventuras… E se tiver de descer da árvore para me seguir… E se perder a sombra? Diz-me então, caro conselheiro, que grandeza haveria para um cavaleiro em fazer a sua montada perder a sombra?

Sang Chaud encolhe ligeiramente os ombros, finge refletir, dissimulando um sorriso quase impercetível… e depois declara, com fingida inocência:

— Bem… se perder a sombra, ao menos não poderá fazer-vos sombra.

Deixa pairar um silêncio leve, quase trocista. Don Carotte, como uma carpa num lago… abre a boca, depois fecha-a. Depois torna a abri-la. Nada sai.

Fica ali, imóvel, sobre a árvore da clareira, um homem demasiado grande diante de um burro demasiado pequeno, prisioneiro de uma árvore demasiado vasta no meio de nenhures.

O silêncio da floresta parece aplaudir enquanto Don Carotte, entre as sombras da árvore, volta a pôr na cabeça uma demanda cujos contornos não cessam de lhe escapar…

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