«Penetrámos num vale onde tudo parecia petrificado. As rochas, erguidas como monumentos em ruínas, traziam a marca de um desastre antigo. Nenhum ruído perturbava o ar, salvo, por vezes, o grito distante de uma ave invisível. O solo, duro e nu, recusava qualquer vestígio de vida. Dir-se-ia que a própria natureza se tinha retirado daquele lugar, deixando atrás de si uma forma sem fôlego, uma arquitetura sem alma. E, no entanto, no meio dessa desolação, algo persistia, uma presença obscura, como se a paisagem conservasse a memória de um mundo abolido.»
Jules Verne, Viagem ao Centro da Terra
Lucian sente-se profundamente só perante as imagens que tenta compreender e que descobre nos diferentes cadernos e carnets que se vão juntando àqueles que lhe serviram para redigir o seu relatório.
Caderno de Lucian
— Que dizer desta visão… Nesta ilha de basalto, onde o silêncio é quebrado apenas pelo grito de gaivotas invisíveis e pelo ressac incessante, no meio desta esterilidade mineral que, diante dos meus olhos, parece desafiar toda a forma de vida… e eis que são testemunhas desta estranha procissão.
Uma criança, um ser frágil, com um improvável chapéu azul, flutuando sobre o dorso de uma quimera alada. Um burro? Um cavalo espectral? Os seus membros estendidos num esforço silencioso, as suas asas sombrias rasgando a palidez do céu. A criança, agarrada a uma simples vara, o seu rosto… tão sereno no meio desta estranha viagem. Para onde vai? De onde vem?
E esta paisagem… estes picos aguçados, rasgados por tons violetas e cinzentos, erguidos como vestígios de um cataclismo esquecido. E estes estandartes… estes farrapos de tecido cor de vinho, flutuando tristemente, presos a mastros solitários. Emblemas de uma glória passada? Recordações de uma civilização engolida pela lava e pelo tempo?
A minha mente, formada para decifrar os meandros da alma humana, acelera. Será isto uma alucinação, fruto da solidão e da dureza deste ambiente? Ou serei testemunha de uma manifestação… de quê, ao certo? Um símbolo? Uma alegoria projetada pelo meu próprio inconsciente sobre a tela bruta desta ilha desolada?
Esta criança… representará a inocência, a esperança que persiste mesmo nos lugares mais áridos? O seu chapéu alto, incongruente e manifestamente demasiado grande, tal como as suas roupas, não será uma tentativa desesperada de manter uma forma de normalidade, de civilização, no seio desta estranha travessia? E esta montada… esta criatura híbrida, entre o terrestre e o aéreo… não será a encarnação da nossa própria ambivalência, dilacerados entre os nossos instintos primários e a nossa aspiração à transcendência?
Estes estandartes rasgados… falam de derrotas, de sonhos partidos, de batalhas perdidas contra as forças implacáveis da natureza ou contra os nossos próprios demónios? Serão os vestígios dos nossos ideais desvanecidos, flutuando como fantasmas no céu da nossa psique?
E este céu… este tom cinzento-esverdeado, estas nuvens atormentadas… refletirão o meu próprio estado interior?
Esta angústia surda que me aperta perante este isolamento, perante o enigma desta visão?
Coloco-me tantas perguntas. Esta viagem… será uma fuga? Uma busca? Uma errância sem rumo num mundo interior desolado? Será a criança eu próprio, perdido nos meandros da minha solidão? A criatura, uma metáfora das minhas próprias forças e fraquezas, transportando-me para um destino incerto?
Esta ilha… não será o espelho da minha própria paisagem interior? Um lugar estéril na aparência, mas talvez fértil em símbolos, em emoções reprimidas que procuram exprimir-se através desta estranha cena.
Tenho de compreender. Tenho de decifrar esta linguagem visual. Cada elemento parece carregado de sentido, cada detalhe ressoa com uma intensidade perturbadora. Esta visão… confronta-me com algo de profundo, de essencial. Talvez seja a chave para desbloquear uma parte de mim que até agora desconhecia.
Estou só aqui, perante este enigma. A minha mente é ao mesmo tempo racional e submersa pela emoção. A lógica tenta dissecar, analisar, encontrar uma explicação plausível. Mas o meu coração… sente uma estranha melancolia, uma fascinação misturada com inquietação perante esta imagem surreal.
Esta ilha… já não é apenas um lugar de exílio. Tornou-se o teatro de uma introspeção forçada, um laboratório do meu próprio inconsciente. E esta visão… é o ponto de partida de uma nova viagem, uma viagem interior cujo desfecho ainda me é desconhecido.

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