vendredi 10 juillet 2026

(140) A abracadabrante história da Criança Lua

« Árvores de folhas imóveis entrecruzavam-se tão densamente que pareciam uma muralha de bronze negro. Era preciso abrir caminho à machadada através da vegetação, e até as próprias raízes se entrelaçavam como nós de serpentes.»

Gustave Flaubert, Salammbô (1862)


Onde se vê, mais uma vez, embora sob outro ângulo, Dom Cenoura e Sangue Quente maravilharem-se, durante a sua segunda viagem em direção à floresta, com uma ingenuidade quase infantil perante o mundo que os acolhe.



– O leitor ocasional terá, por vezes, a impressão de ouvir a mesma voz, antes de descobrir que essa voz contempla o mundo a partir de um outro ponto de vista. Se Dom Cenoura contempla sobretudo a presença do mundo...
– Que faz Sangue Quente?
– Ele percebe sobretudo as transições impercetíveis e os deslocamentos silenciosos. Sem ser mais analítico, talvez esteja já mais atento àquilo que muda sob a aparência daquilo que permanece...

Excerto do diário de Sangue Quente

O dia aproximava-se do fim quando a floresta voltou a surgir diante de nós. Digo voltou a surgir, porque, antes mesmo de reconhecer o mais pequeno detalhe ou a mais discreta curva do caminho, tive a certeza de que regressáramos até ela... já a conhecia. Essa impressão antecedeu qualquer verdadeira lembrança. Embora certas formas ainda nos permanecessem estranhas... a maneira como habitavam o mundo já não o era.
Àquela hora indecisa, as árvores não pareciam apenas elevar-se; pareciam sustentar uma arquitetura da qual apenas conseguíamos perceber os alicerces mais baixos. Os troncos erguiam-se com uma verticalidade tão serena que sugeriam menos a ideia de crescimento do que a de necessidade. Acima das nossas cabeças, as copas uniam-se numa abóbada tão densa que a luz apenas conseguia descer com extrema parcimónia. Não caía sobre as coisas: ia-as revelando lentamente, como se ainda hesitasse em entregá-las ao olhar.
Caminhávamos sem pressa. Nada nos convidava a apressar o passo. Pelo contrário, tinha a sensação de que, ali, qualquer precipitação seria uma forma de compreender mal aquele lugar. Uma floresta de tamanha antiguidade não acolhe o viajante; ensina-o, obrigando-o primeiro a abrandar.
Reparei então que as árvores não formavam uma multidão, mas uma única elevação. Cada tronco parecia prolongar o esforço iniciado pelos outros; cada ramo recebia uma parcela de luz para a transmitir mais adiante. Cada folha parecia aceitar ocupar apenas um lugar ínfimo para que o conjunto permanecesse possível. Aquilo que, visto de longe, poderia parecer desordem revelava, à medida que o olhar aceitava a sua própria lentidão, uma economia de uma severidade quase perfeita. Se nada parecia faltar, também nada parecia exceder.
Por diversas vezes detive-me, menos para observar do que para deixar que as coisas prosseguissem o seu trabalho sem mim. Então tornavam-se percetíveis os movimentos mais discretos: uma samambaia recuperando lentamente o equilíbrio após a passagem de um inseto... uma liana ainda oscilando, sem que fosse possível dizer se fora o vento ou algum animal entretanto desaparecido a pô-la em movimento. Mais além, víamos uma casca de árvore cujas fendas retinham humidade suficiente para fazer nascer todo um povo de musgos minúsculos. Tinha a curiosa impressão de que a floresta nada produzia de isolado. Cada detalhe parecia ser consequência de outro... ele próprio sustentado por um outro ainda. Era como se todo o visível procedesse de uma conversa antiquíssima da qual apenas conseguíamos ouvir algumas palavras.
O silêncio participava também dessa conversa. Não se opunha aos sons; limitava-se a dar-lhes a justa distância. Os chamamentos das aves, o estalar da madeira morta sobre a qual não podíamos deixar de caminhar, a madeira viva prosseguindo a sua lenta ascensão, as gotas brilhantes caindo de muito alto... nada parecia jamais romper aquele silêncio. Pelo contrário, tudo parecia pertencer-lhe, como as leves ondulações pertencem à imagem de uma água que permaneceu tranquila.
Olhei para Dom Cenoura. Nada, na sua atitude, deixava transparecer a menor inquietação. Contudo, pareceu-me discernir nele uma disponibilidade nova, como se alguma coisa já consentisse em apagar-se para permitir que outra pudesse advir. Não saberia dizer o que me conduziu a esse pensamento. Não assentava em qualquer facto concreto. Talvez, dizia para comigo, as transformações mais profundas comecem precisamente quando nenhum acontecimento ainda as anuncia.
Essa ideia não mais me abandonou até ao cair da noite.
Quando a lua surgiu finalmente entre os ramos mais altos, prosseguimos o nosso caminho quase sem falar. Esse silêncio não separava os dois viajantes que éramos; precedia-nos. Pouco a pouco, tivemos menos a sensação de caminhar por uma floresta do que a de entrar, muito lentamente, num pensamento cujas consequências nenhum de nós era ainda capaz de medir.

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