mardi 10 mars 2026

Português

 

No momento em que o sonhador compreende a natureza da sua própria existência:
« Ele caminhou contra os farrapos de fogo. Estes não morderam a sua carne; acariciaram-no e inundaram-no sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, ele compreendeu que também era uma aparência, que outro homem estava a sonhá-lo.»
Para dar maior continuidade à passagem, pode-se recolocar esse momento na frase anterior do relato:
« Durante muitos anos ele havia consagrado as suas noites a sonhar um homem: havia-o sonhado com minuciosa integridade e o havia imposto à realidade. Pouco a pouco o havia instruído nos ritos do fogo, nos segredos do mundo, nos deveres do filho e do homem. Quando a obra foi concluída, enviou-o para o norte, para que jamais soubesse que era o fantasma de outro sonho. »
Esta passagem é uma das mais célebres de Borges porque concentra uma ideia muito profunda: o autor pode acreditar que cria um personagem, mas esse próprio gesto revela a possibilidade de que ele mesmo tenha sido criado por um outro nível de realidade. A ficção torna-se então uma estrutura infinita: sonho dentro do sonho, autor dentro do autor, personagem dentro do personagem.
Em toda a sua obra essa estrutura aparece frequentemente: o escritor sugere que a criação literária é uma metáfora da própria condição humana. Agimos como se fôssemos autores dos nossos atos, mas permanece sempre a possibilidade de que já tenhamos sido escritos por uma história maior do que nós.


Existe uma analogia profunda entre ler e viajar, confirmada pela afinidade entre experiência e as palavras ligadas à passagem. O leitor atravessa limiares invisíveis. Cada texto possui o seu próprio clima, a sua densidade, o seu ritmo particular. Entrar num texto é aceitar que o próprio tempo mude de consistência. Algumas páginas retardam o pensamento, outras aceleram-no. Algumas abrem espaços vastos, outras apertam a atenção até um ponto quase imóvel. Essa modulação do tempo interior constitui uma das formas mais profundas da experiência da leitura.
Mas aquilo que caracteriza uma verdadeira experiência é que ela não deixa intacto aquele que a atravessa. Depois de certas leituras, o mundo familiar parece ligeiramente deslocado. As coisas não mudaram materialmente, contudo a sua presença modificou-se. Uma nuance torna-se perceptível onde antes havia apenas uma superfície uniforme. Uma relação revela-se entre elementos que até então pareciam separados. A própria linguagem torna-se mais sensível, como se a leitura tivesse refinado a capacidade de escutar.
Essa transformação não provém apenas das ideias contidas no texto. Ela nasce do contato direto com uma forma de presença. Ler, nesse sentido, é entrar em relação com uma consciência que não é a nossa, mas que age no interior do nosso próprio espaço interior.


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