“Nos átrios conservavam-se imagens, não estátuas de artistas estrangeiros, nem de bronze ou de mármore, mas figuras de cera, cada uma disposta em seu nicho; essas imagens eram as dos antepassados, para que estivessem presentes nos funerais da família e para que, sempre que um membro da casa morresse, toda a linhagem dos desaparecidos assistisse ao cortejo. Essas imagens eram levadas nas cerimônias públicas; via-se assim caminhar não apenas os que ainda viviam, mas também os que haviam vivido.
Não havia espetáculo mais capaz de inflamar a coragem e inspirar o amor à glória do que ver os rostos de tantos homens ilustres.
Os títulos de suas magistraturas eram inscritos abaixo delas, e por meio delas traçava-se toda a sucessão da família. Assim a casa ficava cheia dessas figuras, e as paredes conservavam as marcas das gerações sucessivas.”
Plínio, o Velho, História Natural, Livro XXXV, 6–7
“Segundo a análise comum, a imagem vem depois do objeto: é sua continuação; vemos primeiro a coisa, depois nos afastamos dela, a perdemos, e a imagem vem depois, como lembrança ou representação. Mas talvez a situação seja inversa. Talvez a imagem venha antes da coisa, e a coisa não seja senão a imagem momentaneamente tornada estável, fixada na ilusão da presença.
O que caracteriza a imagem não é ser o duplo de um objeto, mas ser aquilo que faz com que a coisa esteja sempre já perdida, dada a nós na distância. A imagem não nos aproxima da coisa; ela nos desvia dela, ela é a própria distância.
Ver uma imagem não é ver um objeto mais pobre, nem ver o objeto enfraquecido; é entrar num espaço onde a coisa é entregue à sua ausência, onde aparece como aquilo que já não pode ser alcançado.
A imagem é aquilo que se dá a ver quando já nada há para ver, quando o objeto se retirou em sua ausência. Ela não é a presença da coisa, mas a presença de sua ausência.
É por isso que a imagem pertence à região da morte. Ela é o olhar voltado para o que já não responde, para o que se retirou e, contudo, ainda insiste em sua forma visível.”
Maurice Blanchot, de O Espaço Literário (1955)
– Diga-me, segundo você, o que é uma imagem?
– A palavra imagem traz consigo uma história muito antiga…
– Muito bem, mas onde ela começa?
– Ela não começa com a representação visual, mas com a ideia de imitação viva.
– Imitação de quê?
– Ela vem do latim imago, imaginis. Na Roma antiga, imago não designava primeiro um quadro. Designava a máscara mortuária, moldada sobre o rosto do falecido. Essa máscara era conservada na casa e depois levada nas cerimônias.
– Então a imagem não era uma simples aparência!
– Não, era uma presença derivada, um rosto que sobrevivia àquele que já não estava mais.
– Ela o substituía?
– Não, não substituía o ser, mas prolongava sua potência visível. A imagem era aquilo que permitia ao desaparecido continuar a aparecer.
– Era uma espécie de sobrevivência…
– O latim imago está ligado ao verbo imitari, imitar. Mas imitar, em seu sentido antigo, não significava copiar mecanicamente.
– Como assim?
– O sentido antigo era fazer aparecer segundo uma forma recebida, deixar que um movimento ou uma configuração se reproduzisse.
– Nesse caso, a imagem não seria apenas reprodução, mas transmissão de forma.
– Sim. Encontramos esse sentido também no grego antigo com εἰκών (eikōn), que deu origem à palavra ‘ícone’. Uma eikōn não é um objeto neutro.
– O que é, então?
– É aquilo que torna visível o que não é diretamente visível. No pensamento bizantino, o ícone não é visto como uma coisa, mas como um lugar de passagem. O olhar não se detém nele. Ele passa através dele.
– Assim, desde a origem, a imagem é menos um objeto do que um limiar.
– Sim. Segundo nosso autor, esse caráter também aparece na provável raiz indo-europeia aim- / im-, que remete à ideia de cópia, duplo, forma reproduzida, mas sempre com uma dimensão ativa. O duplo não é apenas duplicação; é aquilo que permite que algo continue em outro lugar.
– É por isso que, se ouso dizer, a imagem mantém um vínculo profundo com a ausência.
– Você tem plena razão. Quando algo está plenamente presente, a imagem é inútil.
– Então eu não seria mais que uma imagem?
– A imagem surge quando a presença se retira ou se torna inacessível. Ela preenche uma distância, mas ao mesmo tempo a revela. Ela torna visível aquilo que já não está imediatamente ali. Por isso a imagem foi durante muito tempo associada aos mortos, aos sonhos, às lembranças.”
Na filosofia medieval, a imago é também a marca deixada na alma por aquilo que foi percebido. A imagem não é apenas exterior. É um traço interior. É aquilo que permanece após o encontro.
No pensamento moderno, essa dimensão torna-se ainda mais radical. Uma imagem não é apenas aquilo que mostra algo. É aquilo que faz aparecer. Ela abre um campo onde algo pode manifestar-se.
%20copie.jpg)
Aucun commentaire:
Enregistrer un commentaire