“Não há percepção que não esteja impregnada de lembranças. Aos dados imediatos e presentes dos nossos sentidos misturamos mil detalhes da nossa experiência passada. Na maioria das vezes essas lembranças deslocam nossas percepções reais, das quais então retemos apenas algumas indicações, simples ‘sinais’ destinados a nos lembrar imagens antigas. A comodidade e a rapidez da percepção têm esse preço; mas daí também surgem ilusões de todo tipo. Nada impediria que percebêssemos as coisas tais como são se não tivéssemos interesse em percebê-las tal como podemos delas tirar proveito. Na realidade, a percepção pura, aquela que seria uma simples presença das coisas, é apenas um ideal e um limite. Toda percepção já é memória. Na prática, percebemos apenas o passado, sendo o presente puro o progresso imperceptível do passado que devora o futuro.”
Henri Bergson, Matéria e Memória (1896)
– Veja… olhar uma imagem não consiste simplesmente em receber uma informação visual.”
“Em que consiste então?
– Trata-se de entrar em uma relação…
– Como nós!
– Certamente, mas uma relação em que o visível se desprende do mundo comum…
– Se entendo bem o que você diz… é exatamente disso que se trata…
– Sim, mas esse visível deve adquirir autonomia.
– E o que é necessário para isso?
– Que a imagem suspenda sua utilidade e torne as coisas disponíveis à contemplação, retirando-as de sua função imediata.
– Acho que estou perturbado…
– É por isso que a imagem pode ser perturbadora… Sim, ela se parece com a coisa, mas não é a coisa. Ela é presença e ausência ao mesmo tempo. Ela se mantém nesse intervalo.
– E nós seríamos esse intervalo… Isso me parece bastante ambíguo…
– Essa ambiguidade está inscrita na própria língua. Em francês, image pode designar uma figura visível, mas também uma figura mental, uma lembrança, uma metáfora. Uma imagem pode ser vista ou pensada. Pode ser exterior ou interior. Ela circula entre o mundo e o espírito.
– Isso é confirmado pela ciência?
– De maneira inesperada… sim… as neurociências contemporâneas confirmam esse fenômeno. Parece que as mesmas regiões do cérebro podem se ativar quando vemos um objeto e quando o imaginamos.
– Isso seria uma abstração?
– A imagem mental não é uma abstração pura. Ela é uma ativação real, um acontecimento fisiológico. É uma forma que se mantém sem suporte exterior imediato.
A imagem é, portanto, aquilo que permite a uma forma subsistir fora de sua fonte.
Esse caráter explica também o poder das imagens na memória. Uma imagem não é apenas um registro. É uma reconstrução ativa. Ela se transforma a cada reaparição. Nunca é idêntica a si mesma.
Por isso a imagem está próxima do verbo aparecer. Ela pertence a esse momento em que algo se destaca do fundo e se torna perceptível. Não é a coisa em si, mas é aquilo por meio do qual a coisa ainda pode advir.
Assim, a palavra imagem não designa apenas uma representação. Ela designa uma forma sobrevivente, uma presença deslocada, um rosto que continua a mostrar-se quando a fonte se retirou.
“Em que consiste então?
– Trata-se de entrar em uma relação…
– Como nós!
– Certamente, mas uma relação em que o visível se desprende do mundo comum…
– Se entendo bem o que você diz… é exatamente disso que se trata…
– Sim, mas esse visível deve adquirir autonomia.
– E o que é necessário para isso?
– Que a imagem suspenda sua utilidade e torne as coisas disponíveis à contemplação, retirando-as de sua função imediata.
– Acho que estou perturbado…
– É por isso que a imagem pode ser perturbadora… Sim, ela se parece com a coisa, mas não é a coisa. Ela é presença e ausência ao mesmo tempo. Ela se mantém nesse intervalo.
– E nós seríamos esse intervalo… Isso me parece bastante ambíguo…
– Essa ambiguidade está inscrita na própria língua. Em francês, image pode designar uma figura visível, mas também uma figura mental, uma lembrança, uma metáfora. Uma imagem pode ser vista ou pensada. Pode ser exterior ou interior. Ela circula entre o mundo e o espírito.
– Isso é confirmado pela ciência?
– De maneira inesperada… sim… as neurociências contemporâneas confirmam esse fenômeno. Parece que as mesmas regiões do cérebro podem se ativar quando vemos um objeto e quando o imaginamos.
– Isso seria uma abstração?
– A imagem mental não é uma abstração pura. Ela é uma ativação real, um acontecimento fisiológico. É uma forma que se mantém sem suporte exterior imediato.
A imagem é, portanto, aquilo que permite a uma forma subsistir fora de sua fonte.
Esse caráter explica também o poder das imagens na memória. Uma imagem não é apenas um registro. É uma reconstrução ativa. Ela se transforma a cada reaparição. Nunca é idêntica a si mesma.
Por isso a imagem está próxima do verbo aparecer. Ela pertence a esse momento em que algo se destaca do fundo e se torna perceptível. Não é a coisa em si, mas é aquilo por meio do qual a coisa ainda pode advir.
Assim, a palavra imagem não designa apenas uma representação. Ela designa uma forma sobrevivente, uma presença deslocada, um rosto que continua a mostrar-se quando a fonte se retirou.
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