“Não busco nos livros senão dar-me prazer por um honesto divertimento; ou, se estudo, procuro apenas a ciência que trata do conhecimento de mim mesmo e que me ensina a bem morrer e a bem viver.
Folheio os livros, não os estudo; o que deles me permanece é algo que já não reconheço como pertencente a outrem. É aquilo que o meu julgamento deles retirou para seu próprio uso; o autor já não é senão ocasião.
Se encontro dificuldades, não as rogo; depois de lhes dar uma ou duas investidas, deixo-as ali. Se me obstinasse, perder-me-ia, e perderia também o tempo; pois tenho o espírito tão delicado e pouco resistente que aquilo que não vejo logo à primeira, vejo ainda menos insistindo.
Faço o que posso; o resto, deixo.
Não me apego muito aos livros novos, porque os antigos me parecem mais plenos e mais firmes. Tampouco me apego aos livros inteiros: tomo aqui e ali aquilo que me serve no momento em que dele preciso.
Não foram os meus livros que me fizeram; fui eu que fiz os meus livros; eles são meus de uma maneira muito mais íntima do que eu sou deles.”
Montaigne, Ensaios, II, 10
Ler verdadeiramente significa aceitar que algo escape ao domínio imediato, aceitar não saber ainda o que essas palavras farão aparecer.
A etimologia latina recorda que a experiência está ligada ao perigo, não no sentido dramático, mas no sentido de um ponto de basculação. Na leitura também existe esse momento frágil em que a compreensão deixa de ser puramente voluntária. O leitor avança sem garantia. Encontra frases cujo alcance ultrapassa a intenção consciente. Algumas permanecem opacas; outras agem sem serem totalmente compreendidas. O que então acontece não é a aquisição de uma informação, mas uma modificação silenciosa das estruturas interiores que tornam a compreensão possível.
É por isso que ler não consiste em acumular conteúdos, mas em deixar-se atingir. A palavra latina expertus, que deu origem a “experto”, designa aquele que atravessou. O verdadeiro leitor é aquele que foi atravessado pelo que lê. O texto não está simplesmente diante dele; ele age nele como uma força lenta, por vezes imperceptível, que desloca antigos equilíbrios, põe em relação elementos separados e abre passagens entre zonas até então isoladas.
Essa transformação nem sempre é consciente. Ela se manifesta muitas vezes depois. Uma frase lida outrora retorna sem aviso, numa situação inesperada. Não retorna como uma lembrança exata, mas como uma forma ativa, capaz de iluminar aquilo que ainda não era visível. A leitura então continuou seu trabalho em silêncio. A experiência não estava limitada ao momento em que os olhos percorriam a página; ela se prolongou na memória, na percepção, na própria maneira de habitar o mundo.

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