« A memória não é um arquivo, mas um mar agitado onde os fatos afundam e ressurgem segundo as marés da nossa consciência. Aquilo que chamamos de “lembrança” é muitas vezes apenas um eco reorganizado, uma ficção mais fiel às nossas emoções do que à realidade bruta. O acontecimento passado subsiste—vasto, complexo, inapreensível—mesmo que retenham apenas um fragmento deformado. E, no entanto, é esse fragmento truncado que muitas vezes guia nossas escolhas, molda nossa narrativa e altera o futuro. Assim, entre o que aconteceu e aquilo que acreditamos ter vivido, existe todo um mundo. Um mundo que habitamos sem realmente conhecê-lo, mas no qual cada lembrança se torna uma causa e cada esquecimento, uma consequência.»
Walid Neill
– Quando você fala de lembranças…
– Sim… quando falo de lembranças… Especifique sua pergunta… se é uma?
– Você fala do que se lembra ou…
– Ou?
– Ou do que realmente aconteceu?
– Que diferença você faz entre os dois?
– O que aconteceu é muito mais amplo do que aquilo de que você poderia se lembrar… e aquilo de que você é capaz de se lembrar foi, em grande parte, a causa do que ocorreu…
– Diga-me… o que aconteceu!
– Você sabe: um texto é um lugar de encontro. Esse encontro não ocorre no espaço físico, mas na própria estrutura da atenção. Às vezes a leitura revela aspectos de si mesmo que ainda não eram acessíveis. Uma frase pode dar forma a uma intuição obscura.
– Justamente… esse Pinóquio o Outro, esse boneco que segue o cão Daemon de quem você me falou… você se lembra dele… é uma figura iniciática?
– O que você quer dizer com “iniciática”… o que tem em mente?
– «Ele não vê o mundo», você me dizia então… «ele o atravessa, sem saber»… Ele é aquilo que ousei chamar, por engano ou por lapso: o homem, aquele que escuta o chamado do Ser sem ter consciência disso.»… Essa foi a sua resposta… Nem preciso perguntar se entendi… e você continuou: «Ele segue não um caminho traçado, mas o próprio retraimento da verdade, esse fio de Ariadne invertido de que falávamos.»
– Um fio de Ariadne invertido, justamente! Foi isso também que nosso mestre me disse… Já não é o fio para sair do labirinto, mas… o fio para reencontrar a alma na matéria. Esse daemon–cão azul não é um animal de estimação, mas o guia psicopompo, o anjo do esquecimento. Ele conduz Pinóquio o Outro não para fora do labirinto, mas para o seu centro, onde arde aquilo que ele realmente é.
– Você toca em algo muito justo. Pinóquio o Outro aqui não está morto no sentido biológico. Ele está “morto para o mundo”, para o mundo da opinião, da representação, do espetáculo. Ele entrou no ventre do grande peixe não como vítima, mas como
– Você toca em algo muito justo. Pinóquio o Outro aqui não está morto no sentido biológico. Ele está “morto para o mundo”, para o mundo da opinião, da representação, do espetáculo. Ele entrou no ventre do grande peixe, esse teatro ou circo, não como vítima, mas como passador.
– Não tenho certeza de compreender.
– A todo momento, a maneira como concebemos as coisas e os acontecimentos os influencia… Nada pode acontecer de forma independente — ou, dito de outra maneira, tudo age, certamente em graus diferentes, sobre tudo. O simples fato de estar ali já é uma ação.
– Voltemos a Pinóquio o Outro!
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