« Há fogos na alma humana que só brilham quando os experimentamos à beira do abismo. Só ao cair é que vemos aquilo que nos queima.»
Heinrich von Kleist, O Príncipe de Homburgo
– Veja! Sob uma lua ausente, a história que se desenrola neste teatro é fascinante. Ela abre, bem além de si mesma, um sulco profundo no equilíbrio incerto das nossas existências. Não é um conto para crianças; poder-se-ia dizer, com certa ênfase, que é um mito hermenêutico. O “teatro que se consome” não é um simples cenário: é a encenação da própria verdade, uma verdade que arde. Mas não é apenas um fogo destruidor. É um fogo iniciático. Sem destruí-lo, por suas luzes ofuscantes, ele revela o mundo através da prova. É preciso atravessá-lo, participar dele. O elemento do fogo aqui não é acidental: em Heráclito, o fogo é o fundo móvel da realidade, a troca constante entre o visível e o invisível. É por isso que o surgimento conserva sempre uma parte de espanto. O real, mesmo vago e incerto, muitas vezes trabalha abaixo daquilo que sabemos dele, e o aparecimento de uma coisa frequentemente precede a compreensão do que a tornou possível.
– Sim. Este teatro… ou devo dizer este ventre, não está no mundo. Ele é o mundo, mas enquanto mundo desvelado… eu deveria dizer mundo surgindo. Ele é aquilo que se chama luz. Como uma clareira na qual o ser se mostra ao mesmo tempo que se retira. E o fogo… o fogo é aquilo que abre essa clareira, rasgando os véus.
Os dois companheiros papagaios veem o dedo branco de Pinóquio aproximar-se do fogo. Sob a luva não é madeira, não, mas algo anterior… anterior à madeira. Como se visse subir ao céu raízes invertidas, palpitantes, Pinóquio o Outro perscruta essa luz com o olhar e vê como se o mundo tivesse sido tecido a partir de nervos.
— Ele toca, diz um. Talvez sinta alguma coisa!
— Ele não sabe, responde o outro.
— Ele não pode saber.
— Mas isso bastará.
O fio e o dedo mal tocados queimam.
Um estremecimento no ar.
As cortinas se movem. O fogo exterior, o fogo antigo, o do mestre, enrola-se em torno das vigas e das telas como uma voz sem língua.
— É agora, diz um.
— Ele entra no fogo, diz o outro.
— Ele sai do mundo.
Mas eles não podem detê-lo. Não podem ajudá-lo.
Nem sequer têm a possibilidade de ser ouvidos.
Tudo o que dizem é para outra pessoa.
E essa pessoa não era Pinóquio, o Outro.
O fogo não veio de cima. Não cai como uma punição.
Ele sobe pelos seus dedos, como uma memória.
E Pinóquio compreende, sem a ajuda de uma única palavra.
Não é a matéria nele que queima, mas o falso.
A luva cai. A mão escurece. Ele não sofre… não no sentido humano.
Pois a dor vem de mais longe… daquilo que ele deve abandonar ao atravessar.
Cada coisa que o fogo toca torna-se verdade.
Cada coisa que resiste é destruída.
E no centro deste teatro em chamas, o pequeno cão azul ainda o espera.
Calmo, como se soubesse desde o início.
O fogo não o atinge.
Ou melhor… ele é o fogo.
Pinóquio compreende que não segue um guia.
Ele segue um fragmento do seu próprio fogo, tornado cão para que pudesse aproximar-se dele.
E ele, o boneco que voltou dentre os mortos, sempre foi cinza?

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