"Ler
não consiste em receber a comunicação da obra, mas em fazer com que a
obra se comunique por si mesma, e se comunique em nós. Ler não é
acrescentar algo ao que somos, mas expor-nos àquilo que, na obra, nos
retira de nós mesmos. A leitura é essa aproximação em que o que está
escrito permanece à distância e, no entanto, já age sobre nós, nos atrai
para o seu próprio espaço, nos faz entrar no movimento onde já não há
nem fora nem dentro. Aquele que lê já não é aquele que era antes de ler;
torna-se o lugar onde a obra se produz, onde ela advém, onde encontra
seu cumprimento provisório. Ler é permanecer nessa transformação em que o
sentido não se dá como um objeto, mas como uma potência que nos desloca
e nos abre ao que ainda não era."
Maurice Blanchot, O Espaço Literário (L’Espace littéraire)
Ler
é uma experiência no sentido mais antigo da palavra. Não porque a
leitura acrescentaria um conteúdo ao espírito, mas porque constitui uma
travessia. A palavra experiência, do latim experiri, significa provar, tentar, expor-se a uma prova. Ela contém o prefixo ex-,
que indica saída, e uma raiz ligada à passagem arriscada, à travessia.
Ler, quando não se trata apenas de decifrar, mas de entrar realmente em
um texto, corresponde exatamente a esse movimento: algo nos faz sair da
posição inicial, nos conduz para outro lugar, e depois nos traz de volta
transformados, mesmo que essa transformação nem sempre seja
imediatamente visível.
Um texto não é
um objeto imóvel. Ele age como um meio que se atravessa. Enquanto as
palavras permanecem à distância, elas continuam sendo sinais exteriores,
comparáveis a formas vistas através de um vidro. Mas, em um momento
quase imperceptível, a distância cessa. O leitor já não olha o texto:
ele se desloca dentro dele. Essa transição marca o início da
experiência. Ela não depende da complexidade do texto, mas da qualidade
da exposição. Em outras palavras… das qualidades do leitor.
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