dimanche 1 mars 2026

Português


"Ler não consiste em receber a comunicação da obra, mas em fazer com que a obra se comunique por si mesma, e se comunique em nós. Ler não é acrescentar algo ao que somos, mas expor-nos àquilo que, na obra, nos retira de nós mesmos. A leitura é essa aproximação em que o que está escrito permanece à distância e, no entanto, já age sobre nós, nos atrai para o seu próprio espaço, nos faz entrar no movimento onde já não há nem fora nem dentro. Aquele que lê já não é aquele que era antes de ler; torna-se o lugar onde a obra se produz, onde ela advém, onde encontra seu cumprimento provisório. Ler é permanecer nessa transformação em que o sentido não se dá como um objeto, mas como uma potência que nos desloca e nos abre ao que ainda não era."
 
Maurice Blanchot, O Espaço Literário (L’Espace littéraire
 
 
 
 
Ler é uma experiência no sentido mais antigo da palavra. Não porque a leitura acrescentaria um conteúdo ao espírito, mas porque constitui uma travessia. A palavra experiência, do latim experiri, significa provar, tentar, expor-se a uma prova. Ela contém o prefixo ex-, que indica saída, e uma raiz ligada à passagem arriscada, à travessia. Ler, quando não se trata apenas de decifrar, mas de entrar realmente em um texto, corresponde exatamente a esse movimento: algo nos faz sair da posição inicial, nos conduz para outro lugar, e depois nos traz de volta transformados, mesmo que essa transformação nem sempre seja imediatamente visível.
Um texto não é um objeto imóvel. Ele age como um meio que se atravessa. Enquanto as palavras permanecem à distância, elas continuam sendo sinais exteriores, comparáveis a formas vistas através de um vidro. Mas, em um momento quase imperceptível, a distância cessa. O leitor já não olha o texto: ele se desloca dentro dele. Essa transição marca o início da experiência. Ela não depende da complexidade do texto, mas da qualidade da exposição. Em outras palavras… das qualidades do leitor.

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