A Criança Lua aparece primeiro como uma silhueta antes de se tornar uma personagem. Algo caminha, avança, atravessa os lugares muito antes de o leitor poder dizer quem ela é. A sua presença reconhece-se menos por um rosto do que por uma maneira de habitar o espaço. Ela chega como chegam certas figuras nos sonhos ou nas memórias antigas: já presentes antes de terem sido introduzidas.
Continuação de (62)
Pois se as verdades se dizem, se organizam, se transmitem, a verdade talvez não seja outra coisa senão essa relação sempre inacabada entre aquilo que aparece e aquilo que, nessa própria aparição, permanece inaparecente. As verdades pertencem ao lado do que pode ser fixado. Recortam um conteúdo, asseguram-no, tornam-no disponível. A verdade, porém, não é aquilo que se fixa. Ela mantém-se na própria vibração através da qual toda fixação deixa escapar algo de essencial.
É por isso que ela não se deixa colocar no plural. O plural dispersa em conteúdos aquilo que, no singular, pertence a um modo de ser. As verdades pertencem ao saber. A verdade toca a maneira pela qual o ser se dá ao retirar-se. Ela não falta às verdades como o seu suplemento ausente. Excede-as de uma maneira totalmente diferente: é aquilo por meio do qual elas são possíveis, mas também aquilo que lhes proíbe bastarem-se a si mesmas.
A Criança Lua sente isso sem conseguir dizê-lo.
Ela vive num livro… Sente as páginas, o seu intervalo, o gesto daquele que as abre, a presença daquele que lê. Mas, à medida que sente essa textualidade do mundo, sente também que o livro não é um simples recipiente. Não é um enquadramento exterior. É a própria forma segundo a qual o aparecer se modula para ela. O mundo não lhe é dado como presença bruta, mas como “folheamento”. Cada coisa visível parece pousada sobre a espessura de outra coisa que ainda não se mostrou. Cada página virada não acrescenta apenas um conteúdo; faz sentir que o visível nunca esteve inteiramente na página anterior.
Assim, o visível já está sempre duplicado pelo invisível.
Mas é preciso compreender esta palavra com precisão. O invisível não é aqui um mundo por detrás do mundo. Não é um domínio separado, escondido atrás do visível como um segredo guardado atrás de uma cortina. É aquilo que habita o visível como a sua reserva. É a profundidade do seu aparecer. É essa ausência interna sem a qual nada teria figura, relevo, retraimento, apelo.
Esta criança, precisamente porque não está habituada ao mundo como a um inventário de objetos, percebe esse retraimento. Não olha como quem verifica. Olha como quem espera ver se, naquilo que se dá, algo mais ainda vai surgir. Está exposta a essa dimensão pela qual a coisa visível nunca é apenas aquilo que mostra. É por isso que não pode satisfazer-se com as verdades disponíveis. Elas detêm-se demasiado depressa. Fecham demasiado cedo. Dão como adquirido aquilo que, para ela, continua a tremer.
É nesse sentido que aquilo que aparece como insolência assume uma profundidade ainda maior.
Não é apenas uma rutura com o hábito social ou discursivo. É uma recusa obscura de consentir num visível empobrecido, num mundo já achatado nas suas certezas. A insolência desta criança consiste em não se inclinar diante daquilo que o dia impõe como evidência suficiente. Ela permanece fiel a essa parte noturna do aparecer pela qual toda coisa guarda em si um pouco de sombra.
Ora, essa sombra não é ignorância.
Ela é condição da presença.
Luz em excesso destrói o visível tanto quanto luz insuficiente. Uma luz sem retraimento nada mostraria; consumiria simplesmente as formas. Do mesmo modo, uma verdade entregue sem sombra deixaria de ser verdade para se tornar violência infligida à capacidade de receber. É por isso que o segredo não é apenas aquilo que protege a verdade da indiscrição. Protege também o sujeito de uma exposição da qual não regressaria intacto.
É preciso dizê-lo ainda mais claramente: certas verdades permanecem secretas apenas porque só aparecem na medida de uma transformação do olhar. Não são retidas; esperam. Não se recusam; exigem uma outra maneira de habitar o visível, de sustentar a ausência no coração da presença, de aceitar que aquilo que se mostra só se oferece retirando-se.
Esta criança encontra-se sobre essa linha. Não acumula saberes sobre o mundo. Aprende lentamente a permanecer junto daquilo que não se deixa reduzir a um saber. Sente que a verdade não é um suplemento de informação sobre o livro, sobre o autor, sobre o leitor, sobre si mesma. É a passagem através da qual tudo isso deixa de ser simplesmente temático para se tornar experiência. É esse momento em que a criança já não pergunta apenas: o que significa isto? mas: o que me faz estar aqui, neste intervalo, nesta luz que ilumina apenas velando ainda?
Pois esta criança não está apenas diante de um retraimento do visível. Está exposta a uma palavra que não lhe pertence, a uma escrita que a precede, a uma obra dentro da qual habita sem jamais possuir o seu domínio. Ora, o espaço onde a obra advém não é o de uma fabricação soberana. É um espaço onde se é remetido àquilo que se retira, àquilo que fascina porque não entra no tempo ordinário do domínio.
Nesta perspetiva, o livro onde a criança vive não é um livro tranquilizador. Não é uma ordem fechada. É um espaço onde o mundo se retira da sua familiaridade.

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