Makis Malafekas, Deepfake, traduzido do grego por Nicolas Pallier, Asphalte
— Certas verdades deveriam permanecer secretas?
— É evidente que nem todas podem ser reveladas…
Caderno da Criança Lua
Acredita-se facilmente que revelar é libertar. Mas nem toda revelação é emancipadora. Certas verdades, entregues cedo demais, não produzem clareza: desorganizam e, por vezes, abrem um vazio onde antes havia apenas uma ignorância estável. Ora, essa ignorância nem sempre é um defeito; pode ser uma forma provisória de equilíbrio. Destruir esse equilíbrio sem preparar aquilo que deve substituí-lo é entregar o ser a uma queda sem fundo.
É por isso que existem verdades que só podem aparecer sob a forma de um desvio. Não se oferecem frontalmente. Passam por imagens, por narrativas, por figuras que amortecem a sua violência. O mito, nesse sentido, não é uma dissimulação da verdade: é a sua condição de possibilidade. Permite que aquilo que não pode ser diretamente suportado seja aproximado e atravessado sem se tornar imediatamente destrutivo.
O segredo, então, deixa de ser aquilo que se opõe à verdade; torna-se o seu modo de aparição. É a forma sob a qual a verdade consente em deixar-se aproximar sem se entregar inteiramente. Não se trata de uma recusa, mas de um ritmo. Toda verdade tem o seu tempo — não um tempo exterior, mensurável, mas um tempo interior, que é o da maturação.
Assim, aquilo que deve permanecer secreto não é aquilo que nunca deveria ser dito. É aquilo que não pode ser dito sem que aquele que escuta esteja pronto para tornar-se outro. Pois certas verdades não se acrescentam ao que sabemos; deslocam-nos para fora de nós mesmos. Não são conteúdos; são passagens.
E talvez seja aí que reside a sua exigência mais radical: elas não pedem apenas para ser compreendidas, mas para ser vividas. Só se oferecem àquele que aceita perder o apoio que acreditava possuir sobre o mundo. A partir daí, o segredo deixa de ser uma fronteira colocada entre os homens; torna-se uma fronteira em cada um, uma linha de crista onde o saber se torna experiência e onde a própria experiência se torna transformação.
Não se trata, portanto, de saber se é preciso revelar ou calar. Trata-se de discernir aquilo que, em nós, é capaz de receber. Pois a verdade não é apenas aquilo que se diz; é aquilo que acontece. E nem tudo o que acontece pode ser acolhido a descoberto. Certas verdades exigem a sombra, não para se esconderem, mas para nascerem.
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