lundi 17 août 2026

(176) A abracadabrante história da Criança Lua


 « Godfrey, voltado para aquele lado — o único onde poderia haver terra — procurava distinguir se alguma falésia se desenharia na sombra. Ao recortá-la com os seus primeiros raios, o sol nascente deveria tornar-lhe os contornos mais nítidos.
Mas nada surgia ainda através daquela alvorada indecisa. Uma leve bruma elevava-se do mar, não permitindo sequer reconhecer a extensão dos recifes.»

Jules Verne, A Escola dos Robinsons


Lucian chega ao Arquipélago. Na sequência de uma troca de cartas com Félix, troca que Lucian considera uma ligeira traição (a palavra é talvez um pouco forte… mas o sentimento vai nesse sentido), Lucian tomou a decisão de «fazer a viagem»… como se diria fazer uma peregrinação… A «traição» teria origem no facto de Félix ter deixado entender… subtilmente… mas talvez não o suficiente… pelo menos para Lucian… que o autor dos desenhos talvez nem sempre fosse Igniatius… Talvez fosse precisamente isso que Félix pretendia: provocar uma reação a um pedido banal, mas que Lucian não podia aceitar tal como lhe era apresentado. Seja como for, essa reação provocou a partida de Lucian. Partida de que Félix toma conhecimento através de uma carta de Igniatius. Aqui não se tratará de publicar essas cartas, que serão objeto de outra publicação. Quando muito, far-se-á alusão a elas conforme as circunstâncias da narrativa que se segue. Esta narrativa tem como cenário a chegada de barco, um paquete… mas no qual não se percebe qualquer vida social… nem tripulação… é uma espécie de navio-fantasma…


Diário de Lucian

Eu tinha embarcado sem poder dizer com certeza em que momento tomara a decisão de o fazer, pois, embora ainda pudesse recordar as circunstâncias banais que haviam precedido a minha partida — algumas coisas reunidas sem grande cuidado, uma porta fechada, papéis levados quase maquinalmente e, entre eles, certas cartas que eu já sabia de cor, embora sentisse a necessidade bastante pueril de as conservar junto de mim —, não teria conseguido encontrar, naquela sucessão de gestos que, posteriormente, confere às nossas decisões a aparência tranquilizadora de uma vontade contínua, o instante preciso em que deixara de considerar como uma simples possibilidade o facto de me dirigir ao Arquipélago, como se aquilo que me pusera em movimento não tivesse acontecido dentro de mim, mas naquele espaço incerto que se abrira entre algumas linhas de Félix e a resposta que eu não soubera dar-lhe; pois Félix nada afirmara, e teria sido injusto da minha parte atribuir-lhe uma acusação que ele precisamente se abstivera de formular, mas deixara entender, com aquela discrição pela qual eu já não sabia se devia estar-lhe grato ou guardar-lhe algum ressentimento, que os desenhos de que falávamos havia tanto tempo talvez nem sempre tivessem a origem que lhes atribuíamos, que Igniatius talvez não fosse, em todas as circunstâncias, o seu autor tão indiscutível quanto havíamos admitido, e essa hipótese, quase retirada no próprio movimento em que surgia, deslocara, no entanto, qualquer coisa que eu até então julgara suficientemente estabelecida para não precisar de a defender.
Eu não me sentira traído — pelo menos teria recusado essa palavra se alguém a tivesse pronunciado diante de mim, de tal modo ela teria conferido àquilo que talvez não passasse de um ligeiro melindre a gravidade de uma rutura — e, no entanto, devo reconhecer hoje que permanecia na minha irritação qualquer coisa que pertencia obscuramente a essa família de sentimentos, não porque Félix tivesse rompido entre nós algum pacto cujos termos tivéssemos estabelecido, mas porque tocara, sem dar por isso, numa convenção silenciosa cuja existência eu só descobrira no momento em que ela deixava de me parecer inteiramente segura; e talvez tivesse sido isso que ele quisera, talvez tivesse simplesmente colocado uma questão cujo alcance conhecia suficientemente bem para saber que não receberia de mim uma resposta tranquila, ou talvez ainda não tivesse pretendido absolutamente nada e fosse eu o único responsável pela importância que dera a algumas palavras, o que pouco alterava o resultado, pois, voluntariamente ou não, ele deslocara o chão debaixo dos meus pés e eu, julgando responder-lhe através de uma decisão que me pertencia inteiramente, dera comigo a bordo de um navio.


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