mardi 18 août 2026

(177) A abracadabrante história da Criança Lua

 « A tempestade toca uma ária de dança; assobia, range e ruge. Vê! ali! como dança o minúsculo barco! A noite é alegre e terrível.
Montanhas de água formam o mar rugidor. Aqui abre-se um abismo obscuro, ali ergue-se uma torre branca.»

Heinrich Heine, Regresso


Onde Lucian conta como, depois de ter embarcado num navio, começa a sentir uma estranha ligação com o mar… e onde, um com o outro, se põem a dançar…

Foi apenas depois de vários dias no mar, quando já não existia atrás de nós costa alguma cuja visão pudesse ainda manter a ilusão de um trajeto mensurável entre um ponto abandonado e outro a alcançar, que me ocorreu a expressão: eu tinha feito a viagem, como antigamente se dizia fazer a peregrinação, fórmula que, de início, me pareceu tão desproporcionada em relação à minha empresa que sorri, pois não ia em busca de santuário nem de relíquia alguma e, se me tivessem interrogado, teria sem dúvida falado, de maneira mais razoável, de uma verificação, de uma confrontação entre os desenhos e os lugares que pretendiam representar, talvez mesmo da necessidade de recolocar certas imagens nas condições concretas de que poderiam ter nascido; mas, por baixo dessas precauções, que eram também os hábitos de um homem que há muito aprendera a não confundir aquilo que supõe com aquilo que sabe, permanecia algo de muito mais simples e muito menos defensável: eu queria ver, como se a visão, chamada em auxílio de uma dificuldade nascida das imagens, ainda pudesse fornecer-me aquele ponto fixo a partir do qual finalmente distinguiria aquilo que pertencia ao mundo, aquilo que pertencia ao desenho e aquilo que, entre ambos, deveria ser atribuído àquele que segurara o lápis.
O próprio paquete parecera-me, durante os primeiros dias, favorecer essa confiança, de tal modo a sua massa considerável parecia estabelecer entre o mar e mim uma mediação suficientemente poderosa para que eu pudesse esquecer aquilo que nos transportava; de tanto percorrer os seus conveses, as suas escadas e os seus longos corredores iluminados, deixara de pensar na enormidade daquela arquitetura flutuante, como, dentro de uma casa, deixamos de pensar no peso das paredes ou na espessura do telhado, e as filas de vigias luminosas que acompanhavam as nossas noites, as portas entreabertas, uma ou outra poltrona abandonada a um canto de um salão, uma cadeira que por vezes deslizava alguns centímetros quando o balanço aumentava, bastavam para dar ao navio aquela aparência de vida que nunca me ocorrera pôr em dúvida, embora hoje quase não consiga recordar rosto algum, conversa alguma, nenhum desses mil movimentos humanos pelos quais deveria ter estado rodeado; mas há ausências de que só nos apercebemos depois de as termos deixado para trás, e talvez a própria abundância dos vestígios humanos, aquela luz espalhada por toda a parte, aquelas portas, aquelas escadas, aqueles assentos, aquelas mesas, me tivesse dispensado de procurar aqueles que deveriam habitá-los, como se a morada, tornada suficientemente vasta, tivesse acabado por substituir aqueles a quem se destinava.
O mar, porém, começara a fazer sentir a sua presença de maneira tão lenta que precisei de algum tempo para compreender que alguma coisa estava a mudar, pois não houve, de início, aquela violência cómoda que, ao declarar-se, permite ao homem dar um nome àquilo que enfrenta, mas grandes movimentos cuja amplitude parecia exceder a vaga particular que o olhar conseguia acompanhar e que envolviam o navio inteiro numa respiração imensa, na qual ele subia com uma lentidão quase solene, continuando por vezes a elevar-se depois de o meu corpo, julgando terminado o movimento, já se ter preparado para a descida, permanecendo depois, por um instante, suspenso numa região incerta onde o meu próprio peso parecia modificar-se, antes que toda aquela massa voltasse a descer segundo uma curva tão vasta que eu já não sabia se estávamos a cair ou se o mar, retirando-se sob nós, simplesmente nos deixava reencontrar um nível que ele próprio deslocara momentaneamente.
A esse primeiro movimento acrescentava-se outro, vindo de través, que inclinava a subida no preciso momento em que eu tentava responder-lhe, e em breve se tornou impossível conservar aquela atitude quase orgulhosa que adotamos quando pretendemos continuar a caminhar normalmente sobre um chão que já não o é, pois tinha de alargar o passo, deslocar o peso de uma perna para a outra, avançar um ombro, recuá-lo logo a seguir, adiantar o pé para corrigir uma inclinação que, no momento em que o pousava, já começara a inverter-se, de tal modo que cada um dos meus gestos, no preciso instante em que o decidira, se tornava a causa do desequilíbrio seguinte; e assim me vi, contra a minha vontade, envolvido numa espécie de dança cujos passos e compasso desconhecia, enquanto um professor invisível, se alguma imaginação irónica tivesse absolutamente insistido em colocá-lo ao meu lado, não teria tido necessidade alguma de contar os tempos nem de mostrar o movimento, pois bastar-lhe-ia deslocar o chão para obter do meu corpo uma volta desajeitada, um recuo precipitado, uma flexão, uma reverência involuntária ou aquela súbita abertura dos braços com a qual eu não procurava de modo algum executar uma figura, mas apenas impedir a minha queda.


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