mercredi 19 août 2026

(178) A abracadabrante história da Criança Lua


O passado não deixa de ter sido.
Não deixa de se tornar passado.


Havia algo de quase cómico naquela imposição, e creio que teria rido de mim próprio se não tivesse em breve sentido até que ponto a brincadeira se voltava contra aquele que eu fora até então, eu que tão bem sabia escutar os deslocamentos nas palavras dos outros, esperar que uma frase regressasse de outra maneira, perceber numa hesitação, numa retomada, num silêncio, um movimento do qual aquele que estava diante de mim por vezes ainda não tinha consciência, e que talvez tivesse acabado por acreditar, sem nunca o confessar a mim próprio, que compreender um deslocamento me dava sobre ele alguma vantagem; pois eis que o meu corpo realizava antes de mim aquilo que a minha inteligência só depois conseguia nomear, e, de cada vez que julgava ter compreendido a direção do balanço, as minhas pernas já tinham sido obrigadas a improvisar a sua resposta, de tal modo que me encontrava na situação inversa daquela que me era familiar: já não aquele que dança com as palavras enquanto observa os outros procurar o equilíbrio, mas aquele cujo corpo, forçado a falar antes de o pensamento ter encontrado a sua frase, se via entregue a uma sintaxe mais antiga do que a sua.
Não pensei então em Igniatius, ou, se o seu nome passou algures por mim, não foi sob uma forma suficientemente clara para que eu pudesse detê-lo, e contudo compreendo agora que talvez ele já estivesse ali, não como uma lembrança à qual eu teria voluntariamente comparado a minha situação, mas naquela estranha necessidade em que me encontrava de começar pelo gesto, pela atitude, por esse movimento do corpo que precede a palavra e ao qual a palavra, quando finalmente chega, muitas vezes não faz senão dar, tardiamente, a aparência de uma origem; pois eu partira precisamente para saber o que havia de verdadeiro nas suas imagens, de onde provinham, qual a mão que as traçara, e eis que, antes mesmo de ter posto o pé na ilha, me encontrava obrigado a experimentar, sob uma forma certamente irrisória perante aquilo que poderia ter sido a sua história, o que significa falar antes das palavras, responder através de um corpo que já não se comanda inteiramente, deixar que um gesto aconteça antes de poder dizer o que ele quer dizer.
Esse pensamento, porém, não teve tempo de se tornar pensamento, pois o mar continuava o seu trabalho com aquela indiferença que tornava os seus movimentos ainda mais impressionantes do que se tivessem sido dirigidos contra nós; nada tinha para me ensinar, ignorava até a minha existência, não conhecia Félix, nem Igniatius, nem os desenhos, e, se alguma iniciação viesse a nascer daquilo que se seguiria, seria absurdo atribuir-lhe qualquer intenção, pois teria erguido as mesmas massas de água se eu nunca tivesse vivido, e era precisamente essa ausência total de desígnio que começava a abalar outro dos meus hábitos: aquele que nos leva a acreditar que aquilo que nos acontece possui necessariamente connosco uma relação cujo sentido bastaria reencontrar.
A vaga que eu via embranquecer junto ao navio já não era para mim uma coisa isolada, pois sentia confusamente que ela não passava da manifestação visível de um movimento começado noutro lugar, transmitido de massa em massa, talvez atravessado por outras ondulações vindas de uma direção diferente, desviado pelas profundezas, em breve refletido pelas paredes submarinas de terras que eu ainda não conseguia avistar; a água subia sob o casco, afastava-se, encontrava o seu próprio retorno, e o paquete, que até então me parecera suficientemente enorme para ser quase independente daquilo que o rodeava, revelava subitamente a sua verdadeira pequenez, não por comparação com uma vaga particular que fosse mais alta do que ele, mas porque estava inteiramente compreendido num sistema de movimentos nenhum dos quais tinha o seu centro a bordo.
Já não sabia exatamente o que significava avançar, pois a proa se erguia enquanto o convés se inclinava, parecíamos virar ao mesmo tempo que o horizonte, quando surgia por um instante entre a noite e a espuma levada pelo vento, realizava também um movimento contrário, e o único ponto a partir do qual eu poderia ter decidido qual desses movimentos era real encontrava-se precisamente em mim, isto é, no corpo menos capaz, naquele instante, de permanecer imóvel; atrás, à frente, acima, abaixo conservavam ainda o seu sentido na língua, mas perdiam pouco a pouco a sua evidência na experiência, e eu descobria, com uma inquietação crescente, que a orientação que tomamos por uma propriedade do mundo talvez dependa, em grande parte, da imobilidade provisória do lugar a partir do qual o observamos.

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