dimanche 12 juillet 2026

(142) A abracadabrante história da Criança Lua



Onde Félix, tendo estendido diante de si os desenhos juntamente com os cadernos de Don Carotte, de Sang Chaud e de Lucian, se espanta ao ver um mesmo acontecimento deixar-se habitar por vários olhares sem jamais deixar de ser o mesmo… onde, decidido a verificar por si próprio aquilo que as palavras já lhe ensinaram, descobre pouco a pouco que nem sempre permanecemos tão facilmente no lugar que julgávamos ocupar. Descobre também que os cadernos não ditam o percurso das personagens. Não são o sol do sistema, mas antes um ponto de passagem onde trajetórias que pareciam independentes revelam subitamente pertencer à mesma dança… e onde ele próprio, pouco a pouco, começa a perder o pé.

Excerto do caderno de Félix

Pouco antes do crepúsculo, e antes que o menor detalhe viesse confirmar as descrições que tantas vezes relera, tinha a impressão de que a floresta se erguia diante de mim com aquela mesma presença antiga que Don Carotte, Sang Chaud e, mais recentemente, Lucian haviam procurado descrever, cada um à sua maneira. A princípio, espantei-me por reconhecer um lugar que ainda não conhecia. Logo a seguir corrigi-me. Não reconhecia coisa alguma… reencontrava apenas as palavras e as imagens que me tinham conduzido até ali.
Permaneci imóvel durante alguns instantes.
Já sabia muitas coisas. Demasiadas, talvez. Os cadernos que, ainda há pouco, estavam abertos sobre a minha secretária repousavam agora na minha mochila. Conhecia as suas hesitações, os seus assombros, os seus silêncios, até essas ínfimas diferenças de olhar que faziam com que cada um parecesse escrever o mesmo mundo sem jamais escrever o mesmo texto. Sorri, surpreendido comigo próprio, ao pensar que quase viera apenas verificar uma hipótese. A ideia desagradou-me.
Uma hipótese é uma maneira profundamente humana de esperar que o real confirme aquilo que já pensamos. Ora, eu não tinha vindo até aqui para ter razão.
Retomei o meu caminho solitário.
Se as primeiras árvores nada desmentiam, também nada confirmavam. Estavam simplesmente ali, com aquela tranquila evidência que pouco se importa com as narrativas que os homens constroem à sua volta. Observava os troncos, as lianas, os musgos, como quem examina as peças de um mecanismo esperando descobrir o princípio que o governa. Pouco a pouco compreendi que essa própria expectativa se tornava um obstáculo.
Existem, sem dúvida, lugares que nada revelam àquele que procura apenas compreendê-los.
Abrandei o passo quase sem dar por isso.
O caminho parecia agora decidir por si mesmo o meu ritmo. Não porque me impusesse alguma coisa, mas porque retirava simplesmente toda a necessidade de escolher. Os meus passos sucediam-se com tal discrição que depressa deixei de medir a distância percorrida. As árvores já não ocupavam o espaço; conferiam ao tempo uma espessura nova. Então ocorreu-me uma impressão singular: não era eu que atravessava a floresta. Era a floresta que passava lentamente através daquele que consentia em permanecer nela.
Detive-me diante de uma parede de basalto onde antigos derrames de lava ainda desenhavam as lentas ondulações do seu fluxo petrificado. Entre duas pregas da rocha crescera uma planta tão delicada que quase era preciso desistir de a ver para começar realmente a percebê-la.
Pensei imediatamente nos desenhos.
Depois esforcei-me por afastar esse pensamento.
Foi precisamente nesse instante que ele se impôs.
Já não contemplava o desenho de que me lembrava; encontrava-me diante daquilo que talvez o tivesse tornado possível. A diferença pareceu-me, num primeiro momento, imensa. Alguns passos mais adiante, deixei de saber qual dos dois precedia o outro. Teriam os desenhos preparado o meu olhar para reconhecer aquela parede? Ou teria aquela parede de basalto estado desde sempre secretamente presente nos desenhos?
Procurei recuperar o meu equilíbrio nomeando as coisas.
Basalto.
Líquenes.
Raízes.
Fetos.
As palavras surgiam com uma facilidade quase tranquilizadora. Contudo, à medida que apareciam, sentia que iam perdendo parte da sua autoridade. Não desapareciam… simplesmente deixavam de interromper aquilo que estava a acontecer. Pela primeira vez, talvez, compreendi aquilo a que Don Carotte chamava uma presença; aquilo que Sang Chaud reconhecia como um tecido de relações; aquilo que Lucian experimentava ao descobrir que os cadernos não ensinam o que devemos ver, mas como devemos olhar.
Eu não tinha alcançado os seus relatos…
Eram os seus relatos que, muito lentamente, deixavam de permanecer separados do meu.
Uma inquietação muito suave atravessou-me.
Perguntei a mim próprio se toda a verdadeira leitura não conduz, um dia, a essa fronteira singular onde já não sabemos muito bem se somos nós que acompanhamos um livro… ou se começamos, discretamente, a ser escritos por ele.
A lua erguera-se sem que eu me tivesse apercebido.
Levantei os olhos com a estranha impressão de me ter esquecido de algo essencial. Depois compreendi que esse esquecimento não dizia respeito a acontecimento algum. Apenas deixara, por breves instantes, de me observar a viver aquela experiência.
Pareceu-me então que os desvios mais profundos talvez não sejam outra coisa senão os caminhos pelos quais a consciência acaba finalmente por consentir em perder de vista o seu próprio centro, não para desaparecer, mas para descobrir que o mundo nunca precisou dela para estar plenamente presente.


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