« O mundo, por seu lado, estava aliás inteiramente disposto a ir ao encontro deles. Continuava ainda a considerá-los pessoas a cuja casa ninguém da sociedade ia, mas que não sentiam por isso qualquer desgosto. »
Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido,
Sodoma e Gomorra, nrf, edição de 1919, tomo 10
Onde Félix, prosseguindo a sua viagem pelos cadernos, compreende que os pensamentos se assemelham ao rio que desaparece sob a montanha para reaparecer noutro lugar, enriquecido e transformado por aquilo que atravessou. Começa assim a suspeitar que uma ideia nunca pertence inteiramente àquele por quem passa: desenvolve-se graças a ele, mas também o transforma, de tal modo que cada um não é nem o seu autor absoluto nem o seu simples depositário.
Caderno de Félix
Compreendo agora por que razão a observação do papagaio a propósito dos pensamentos me faz sorrir sempre que a releio:
— É provável que seja um risco que eles são obrigados a correr…
A inversão é quase insolente. Habituámo-nos de tal maneira a considerar o risco a partir da nossa própria margem. Receamos enganar-nos, compreender mal, trair uma ideia, não alcançar aquilo que alguém queria dizer. Mas, se por um instante inverter a perspetiva, como nesses mapas antigos em que por vezes se colocava o sul em cima sem que o próprio mundo sofresse com isso, é a ideia que corre um risco ao entrar em nós.
Arrisca-se a confrontar-se comigo… ou com Lucian… ou ainda com Igniatius… com o Menino Lua, Don Carotte e, porque não, com os próprios papagaios.
Ela enfrenta a nossa memória infiel, a nossa necessidade de concluir, as nossas simplificações, as nossas metáforas, os nossos erros de leitura, as palavras de que dispomos e aquelas que nos faltam. Enfrenta até o nosso desejo de nos apropriarmos dela, declarando de imediato: « Tenho uma ideia », como se o simples facto de ela aparecer no nosso espírito bastasse para estabelecer um título de propriedade.
Esta expressão inquieta-me cada vez mais: « O meu pensamento » ou « A ideia dele ».
Empregamos estes possessivos com uma facilidade tal que acabam quase inevitavelmente por produzir uma origem. Se a ideia é minha, devo tê-la criado; se aparece nele, deve começar nele. A nossa gramática desliza suavemente da presença para a posse, depois da posse para o autor, e em breve já nem nos perguntamos se as três são realmente idênticas.
E, no entanto, dizer « tenho uma ideia » poderia ser tão ambíguo como dizer « recebi uma visita ». No primeiro caso, ouvimos espontaneamente a posse; no segundo, o acontecimento. Talvez fosse preciso conservar ambos. Alguma coisa me acontece, e aquilo que me acontece não permanece exterior a mim, pois, ao recebê-lo, transformo-o e ele transforma-me por sua vez.
Então volto a pensar nos papagaios. De onde vêm eles?
Poderia retomar cada caderno, procurar a primeira aparição, estabelecer uma cronologia, tentar descobrir qual de nós… através dos nossos cadernos, cartas, apontamentos ou desenhos… terá podido transmitir a ave aos outros três, mas este método ainda pressupõe que a transmissão tenha necessariamente seguido uma rota visível, como se todo o rio tivesse de ter o seu curso assinalado a azul num mapa antes de poder chegar ao mar.
E se a sua aparição tivesse sido quase simultânea?
Não quero dizer milagrosa. Desconfio suficientemente dos milagres quando servem apenas para dar um nome àquilo que não compreendemos. Mas seria absolutamente inconcebível que uma mesma forma surgisse quase ao mesmo tempo em vários espíritos porque alguma coisa, sem pertencer plenamente a nenhum deles, encontrava em cada um um lugar onde ganhar corpo?
Os papagaios seriam então menos personagens transmitidas do que uma convergência. Seriam como uma ideia que tivesse encontrado vários ramos onde pousar. Ou talvez uma sombra projetada. Mas sombra de quê?
Procuro a presença que poderia estar fora do desenho e da qual as aves não seriam senão a projeção, e logo me pergunto se não poderia ainda inverter esta proposição: já não uma sombra, mas uma luz projetada por alguma presença invisível, se é que uma luz pode ser projetada como uma sombra, e sorrio perante a contradição antes de me aperceber de que ela já não me parece inteiramente contraditória nas páginas que tenho diante de mim.
Há coisas cuja fonte não vemos, mas apenas aquilo que elas tornam visível. Talvez os papagaios pertençam a essa categoria. Não sei. E é importante que eu não saiba. Porque então reencontro a última frase da conversa deles:
— Segundo o nosso próprio mestre, as ideias não fariam distinção entre ele e nós…


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