“Fazendo ressurgir do fundo de sua memória as noções básicas, ele empreendeu, num primeiro momento, estabelecer a diferença entre o som e o som musical, constatou que o segundo se distinguia do puro fenômeno físico pela existência de uma certa simetria entre seus harmônicos; em outras palavras, a especificidade do som musical provinha do fato de que as chamadas ondas periódicas de um único som, contendo uma sequência de vibrações, podiam ser expressas numa razão de pequenos números inteiros; depois observou o parentesco entre dois sons, condição primeira da concordância harmônica, e notou que o “prazer”, isto é, a percepção musical desse fenômeno, surgia quando os dois sons em questão continham um máximo de harmônicos consonantes, ou seja, quando um mínimo deles se encontrava numa proximidade perigosa uns dos outros; isso para simplesmente lhe permitir identificar, sem a menor dúvida, o próprio conceito de sistema musical e estudar os estágios cada vez mais lamentáveis de sua evolução, estudo que muito rapidamente o conduziria a uma descoberta crucial.
Se algum dia aprendera algo a respeito, já não se lembrava dos detalhes, talvez por causa de sua aparente futilidade; por isso precisou refrescar e enriquecer a memória, de modo que, durante aquelas semanas de efervescência, seu quarto se cobriu de uma montanha de anotações (onde se alinhavam funções e cálculos, comas e equações, índices de frequência e de ressonância) que era preciso transpor para poder circular. Ele teve de compreender Pitágoras e o seu daimon dos números, como esse mestre grego, cercado pela admiração de seus discípulos, com base na divisão do comprimento da corda, elaborara um sistema de intervalos muito impressionante em seu gênero, e foi forçado a admirar a descoberta genial de Aristóxeno que, graças à sua prática da música antiga e à sua engenhosidade instintiva, confiava inteiramente ao ouvido e, como ouvia o universo das harmonias naturais, teve a brilhante ideia de afinar seu instrumento segundo uma escala harmônica fundada no célebre tetracorde olímpico; em suma, teve de compreender e admirar esse fato interessante: o filósofo que buscava os princípios de coesão do mundo e o humilde servidor da expressão harmônica, partindo de duas sensibilidades radicalmente diferentes, chegavam a conclusões surpreendentemente semelhantes.
Ao mesmo tempo, teve de estudar o que aconteceu depois, isto é, a triste história da evolução científica da música instrumental, ou seja, como os limites da afinação natural, a restrição que, por dificuldades de modulação, excluía formalmente o uso das armaduras mais elevadas, tornaram-se cada vez mais insuportáveis; em outras palavras, foi obrigado a seguir passo a passo o processo fatal que gradualmente fez cair no esquecimento a questão fundamental — o sentido e a importância da restrição.”
László Krasznahorkai, A melancolia da resistência, tradução automática
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