jeudi 26 février 2026

Português

 

“E de repente a lembrança surgiu-me.
Aquele gosto era o do pequeno pedaço de madeleine que, aos domingos de manhã em Combray (…) minha tia Léonie me oferecia depois de o ter mergulhado na sua infusão de chá ou de tília.
(…) Quando de um passado antigo nada subsiste, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, somente, mais frágeis mas mais vivas, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, esperando, aguardando, sobre a ruína de tudo o mais, sustentando sem ceder, sobre a sua gotícula quase impalpável, o imenso edifício da memória.”

Marcel Proust, No caminho de Swann (Du côté de chez Swann, 1913)

O verbo francês « emporter » (“levar embora,” “carregar consigo,” “arrastar para longe”) não aparece aqui explicitamente, mas todo o trecho desenvolve a sua dinâmica profunda. O gosto apreende o narrador e o leva para fora do presente. Ele é arrancado do lugar onde se encontra; é conduzido para outro lugar, para Combray. Esse deslocamento não é espacial no sentido material, e no entanto produz uma verdadeira saída do lugar imediato.

A lembrança, sustentada pelo sabor, leva o sujeito para fora do seu tempo atual. Algo cede, a fronteira entre presente e passado, e algo resiste, a persistência sutil do odor. Esse “ser levado” proustiano não tem nada de violento na aparência; ele atua como uma força suave, mas irresistível, que retira o sujeito do instante e o deixa momentaneamente ausente de si mesmo.

Aqui, o que é levado não é um corpo, mas uma consciência. A palavra francesa «emporter»  encontra assim uma realização quase invisível: um deslocamento sem ruptura, uma extração silenciosa, um exterior interior.



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