dimanche 17 mai 2026

(67) abracadabrante história da Criança Lua


Aquilo que ali se escreve não se oferece como um significado que se possa possuir, mas como uma aproximação interminável. A criança não é apenas personagem. É aquela por meio da qual a obra experimenta a sua própria impossibilidade de se fechar sobre um sentido último.



A Criança Lua compreende então, obscuramente, que a verdade não está por detrás do texto como uma mensagem codificada que seria preciso decifrar. Ela está nesse próprio movimento em que o texto deixa aparecer mais do que diz, e menos do que promete. Está na distância entre a escrita e a posse do sentido. Está nessa exposição àquilo que se aproxima sem se entregar.
A partir daí, o segredo muda ainda de rosto.
Já não é apenas o ritmo da revelação. Torna-se a própria lei da aproximação. Há coisas que só podem ser encontradas sob a condição de não serem imediatamente reconduzidas à luz do conhecimento claro. Há uma parte da verdade que requer a noite, não por gosto da obscuridade, mas porque só a noite permite que a presença não se confunda com a apreensão.
Esta criança pertence a essa região.
Quando sente que está a ser lida, não acede a uma certeza; é atravessada por uma presença que a constitui sem se mostrar. Quando pressente que alguém abre as páginas, não adquire uma verdade positiva; entra numa experiência em que a própria ausência se torna atuante. Quando sente que o mundo visível a olha de volta, não descobre um novo objeto; consente um pouco mais nessa espessura carnal do visível em que aquele que vê já está tomado por aquilo que vê.
E é aqui que a relação entre verdade e verdades atinge a sua forma mais precisa.
As verdades dizem respeito àquilo que se pode dizer do visível. Referem-se às suas formas, às suas leis, aos seus acontecimentos, às suas determinações. São necessárias, mas recortam. A verdade diz respeito ao facto de o visível nunca coincidir com aquilo que dele se diz. Diz respeito a esse resto de invisibilidade sem o qual nada seria visível. Diz respeito à impossibilidade, para toda palavra verdadeira, de esgotar aquilo que a torna possível.
Assim, as verdades não são falsas; são insuficientes por essência. Chegam sempre depois. Fixam aquilo que, na experiência, já em parte se retirou. Traduzem. E toda tradução deixa atrás de si uma noite que não dissipa.
A verdade, ela própria, não vem depois. É esse próprio retraimento graças ao qual há algo a dizer, e algo impossível de dizer inteiramente.
É por isso que esta criança não deve ser conduzida a uma iluminação total. Isso seria perdê-la. Aquilo de que necessita é de uma justeza mais fina na sua maneira de sustentar o obscuro. Não ceder à confusão, não celebrar o indistinto, mas aprender a reconhecer que toda aparição digna desse nome guarda a sua parte de sombra, que toda palavra que toca a verdade se quebra um pouco naquilo de que se aproxima, e que o próprio sujeito só se constitui consentindo em nunca ser transparente para si mesmo.
A sua insolência aparece então sob uma nova luz. Já não é apenas um desvio em relação ao hábito. Torna-se fidelidade àquilo que, na experiência, recusa deixar-se converter demasiado depressa em objeto claro. Ela é insolente porque não permite que a luz administrativa do sentido recubra a noite originária de onde o visível retira a sua fonte. Não quer habitar um mundo inteiramente explicado, porque um mundo inteiramente explicado seria um mundo onde já nada apareceria.
Assim, mantém aberta a leve ferida através da qual o verdadeiro ainda pode respirar.
E é nisso que ela se aproxima do escritor, não daquele que exprime aquilo que sabe, mas daquele que se expõe àquilo que, na obra, nunca se deixa reduzir a uma posse. A criança vive no livro como numa proximidade com aquilo que a escreve sem se mostrar. Não domina esse espaço; arrisca-se nele. E é precisamente esse risco que a coloca à beira da verdade.
Poder-se-ia então dizer, para concluir num tom mais noturno, que esta criança não é apenas o sujeito de uma dependência da linguagem, nem apenas uma figura trágica presa na palavra e no olhar do Outro.
Ela é aquela que habita a “intervisão”. Vive sobre o limite onde o visível se abre para o seu invisível, onde o saber encontra aquilo que o excede. Esse lugar onde a verdade só se dá ao retirar-se. Se procura, não é para descobrir tudo. Se é insolente, não é para derrubar tudo. Se tenta aproximar-se da verdade, não é para possuí-la. Procura permanecer suficientemente próxima desse retraimento para que nela algo continue a aparecer. E se há um segredo, então esse segredo não é outra coisa senão esta noite interior do visível, esta reserva sem a qual a presença seria sem profundidade, esta sombra graças à qual a verdade nunca deixa de ser mais do que as verdades.
Talvez a criança aprenda apenas isto: que é preciso viver não na plena luz, mas numa claridade suficientemente humilde para deixar subsistir a sombra de onde ela vem.

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