“O Sonho é uma segunda vida. Nunca consegui atravessar sem estremecer essas portas de marfim ou de chifre que nos separam do mundo invisível. Os primeiros instantes do sono são a imagem da morte; um entorpecimento nebuloso apodera-se do nosso pensamento, e não conseguimos determinar o instante preciso em que o eu, sob outra forma, continua a obra da existência.
É um subterrâneo vago que pouco a pouco se ilumina, e onde surgem da sombra e da noite as pálidas figuras gravemente imóveis que habitam a região dos limbos. Depois, o quadro começa a mover-se, uma nova claridade ilumina e anima essas aparições bizarras…”
É um subterrâneo vago que pouco a pouco se ilumina, e onde surgem da sombra e da noite as pálidas figuras gravemente imóveis que habitam a região dos limbos. Depois, o quadro começa a mover-se, uma nova claridade ilumina e anima essas aparições bizarras…”
Gérard de Nerval, Aurélia ou o sonho e a vida, em Les Filles du feu
Sinto sobre mim um olhar pousado. Quem poderá olhar-me assim? Sei-o da mesma maneira que os seres encerrados nos sonhos sabem obscuramente que uma consciência estrangeira se mantém por detrás das paisagens que atravessam. Uma presença… um rosto… não sei. Talvez uma abertura no mundo. Uma atenção silenciosa pesando sobre as coisas sem jamais lhes tocar completamente.
Há muito tempo já caminho neste circo. Falo de “caminhar”, mas a palavra permanece instável. Pois aqui ninguém caminha como noutros lugares. O próprio solo hesita. As vigas deslocam-se lentamente na escuridão antes de, bruscamente, cederem à vertigem que as invade. As cordas respiram, as lonas incham como peitos imensos, e as rochas vermelhas onde nasci parecem por vezes derivar nas profundezas da tenda como ilhas levadas sobre um mar invisível. Conheço bem essas rochas. Conheço o seu calor. Conheço as veias negras que correm sob a sua superfície, as antigas queimaduras fixadas na sua carne vulcânica. São o último lugar que ainda conserva a memória de um verdadeiro apoio. Tudo o resto flutua.
Debaixo de mim sobem as chamas que agora temo. Não queimam como arde o fogo dos homens. Sobem lentamente, interminavelmente, com a paciência de uma planta ou do fumo. Sempre as conheci. Já atravessavam o ventre da tenda antes do meu nascimento. Às vezes penso que sustentam o mundo; outras vezes que o consomem. E o mar que ruge responde-lhes. Quase nunca vejo o oceano propriamente dito. As suas ondas sobem até às profundezas do circo. Batem na base do fogo com um som pesado, antigo, semelhante a uma respiração adormecida. Toda a tenda oscila entre essas duas forças: aquilo que quer subir e aquilo que se desfaz e quer retomar… e eu estou entre ambas.
Durante muito tempo acreditei que esta corda, que me recorda aquelas que outrora me guiavam e sobre a qual hoje sei caminhar, tinha sido estendida para me prender.
Ainda me lembro da sua antiga presença acima de mim. Descia das alturas obscuras como uma vontade estrangeira. Não sabia quem a segurava. Talvez ninguém. Talvez o próprio circo. Ela seguia-me… ou eu seguia-a, o meu corpo constantemente entravado antes mesmo de eu saber falar. Cada um dos meus gestos parecia já escrito na sua tensão. Depois, um dia, algo mudou.
Essa corda podia também sustentar.
Então, prudentemente, um pé após o outro, sem procurar desafiar o vazio que me rodeava, aventurei-me nela. Queria apenas saber se um fio capaz de constranger podia igualmente conduzir-me para esse outro lugar que eu esperava. Desde então permaneço suspenso entre dois mundos: atrás de mim as rochas vermelhas da ilha, diante de mim o espaço móvel da tenda onde as chamas sobem em direcção a um fumo sem céu.
E enquanto avanço, sinto por vezes essa presença que entra e sai da tenda, tal como entra e sai de mim próprio. Vem de muito longe. Mais longe do que as alturas do circo. Mais longe do que estas ilhas que nos sustentam.
Mais longe até do ventre obscuro onde tudo isto parece ter sido construído e depois abandonado.
No princípio pensei que pudesse tratar-se do Leviatã… Sei agora que vivemos dentro de algo que se assemelha a um corpo imenso. As vigas sustentam e estalam como ossos. As cordas vibram como nervos. As lonas vermelhas pendem como membranas interiores agitadas por sopros invisíveis. Tudo aqui possui uma lentidão orgânica. Mas nessa sombra… esse olhar não pertence ao monstro. Vem de além do ventre. Por vezes atravessa-me como uma luz fria atravessaria uma água profunda. Então o mundo inteiro se modifica ligeiramente à minha volta. As chamas tornam-se mais altas. O silêncio regressa e aprofunda-se lentamente. As rochas parecem esperar. E eu próprio torno-me ao mesmo tempo mais real e mais frágil. Não saberia dizer porquê, mas às vezes parece-me que essa presença me lê. Como se a minha vida avançasse numa matéria feita de sinais, gestos e imagens reunidos numa obscuridade que não consigo compreender inteiramente. Então uma estranha angústia apodera-se de mim: e se cada uma das minhas travessias dependesse desse olhar distante? E se o próprio mundo continuasse a existir porque alguém, algures fora da tenda, persistisse em virar as páginas invisíveis da nossa noite?
Sinto nesse desconhecido uma solidão talvez próxima da minha. Também ele parece suspenso… como preso em algo que o ultrapassa. Linha após linha… passando de uma para outra, num equilíbrio instável, tenta apreender um sentido que ainda me escapa…
Por vezes tenho até a terrível impressão de que ele participa no desmoronamento do circo simplesmente ao olhar para mim, como se toda a verdadeira atenção desgastasse secretamente aquilo que ama. Então continuo a avançar sobre a corda enquanto ele prossegue a sua linha… indo e vindo… não para fugir ou vencer, mas para manter aberta essa estranha distância entre ele e mim, essa distância graças à qual ele ainda pode ver-me sem cair inteiramente no mundo onde vivo, e graças à qual eu ainda posso sentir, acima do ventre do Leviatã, a presença quase impossível de um outro.
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