« Talvez a história universal não seja mais do que a história de algumas metáforas.
A mais antiga e a mais célebre é a da caverna de Platão. Homens, acorrentados desde a infância numa caverna, veem na parede sombras projetadas por um fogo que arde atrás deles; tomam essas sombras pelas próprias coisas. Um deles é libertado, sai da caverna, vê os objetos verdadeiros e, finalmente, o sol. Quando volta para contar o que viu, os outros não acreditam nele e pensam que perdeu a visão.
Essa metáfora serviu durante séculos para representar a nossa situação no mundo. Vemos aparências e tomamo-las por realidade; confundimos as imagens com as coisas. Talvez também seja verdade que essas imagens sejam tudo o que possuímos. Talvez o universo visível não seja senão um sistema de símbolos do qual percebemos apenas as projeções.»
Inquéritos (Otras inquisiciones), Jorge Luis Borges
As imagens quase nunca são inocentes, e a palavra caverna possui uma ressonância filosófica muito precisa que remete quase inevitavelmente à célebre caverna de Platão em A República.
– O que aconteceria se invertêssemos a função dessa caverna?
– O que quer dizer com inverter?
– Em Platão, a caverna é o lugar da ilusão. Os prisioneiros veem sombras projetadas na parede e tomam essas aparências pela realidade. O trabalho filosófico consiste então em sair da caverna para alcançar o verdadeiro mundo, o mundo das ideias e da verdade inteligível, iluminado pelo sol do Bem.
– O que seriam essas sombras?
– Nesse caso, a sombra é o símbolo de uma falta de realidade. Ela remete a uma verdade situada noutro lugar, fora da caverna. Com essa inversão, podemos quase inverter completamente esse esquema.
– Como?
– Pode-se imaginar, como fez Nietzsche, que durante milénios ainda haverá cavernas onde se mostrará a sombra de Deus. Ele sugere que a humanidade continuará a viver em lugares simbólicos onde se exibem projeções de um absoluto desaparecido. Mas a diferença decisiva é a seguinte: em Nietzsche, já não existe um “sol” metafísico fora da caverna. Já não existe um mundo inteligível que garanta a verdade última das coisas.
– Em outras palavras, a imagem platónica permanece, mas a arquitetura metafísica que lhe dava sentido desmoronou.
– Poder-se-ia quase dizer que Nietzsche radicaliza o diagnóstico platónico ao mesmo tempo que suprime a solução platónica.
– O que dizia Platão?
– Ele dizia, em essência: os homens vivem entre sombras, mas existe uma realidade superior que é possível alcançar.
– E nós?
– Que os homens continuam a mostrar sombras, mas a fonte à qual essas sombras remetiam já não existe.
– A caverna torna-se então um teatro de sobrevivências.
– Exatamente. As sombras persistem mesmo quando o corpo que as produzia já não está lá.
– É por isso também que Nietzsche fala de “vencer a sombra de Deus”.
– O problema não é apenas a existência de Deus…
– O problema é a persistência das estruturas mentais herdadas da metafísica platónica e cristã. Nietzsche chama muitas vezes essa tradição de “platonismo para o povo”, isto é, a transposição religiosa da estrutura platónica: um mundo sensível imperfeito e, acima dele, um mundo verdadeiro, perfeito, absoluto.
– Mas sem Deus…
– Quando Deus desaparece, essa arquitetura não desaparece imediatamente. Continua-se muitas vezes a pensar como se um mundo verdadeiro tivesse de existir algures, uma verdade absoluta…
– Seriam tantas sombras projetadas nas paredes de novas cavernas.
– Assim, o vínculo com Platão torna-se quase irónico.
– Por quê?
– Na alegoria platónica, sair da caverna significa aceder à verdade.
– E para o filósofo?
– Em Nietzsche, a situação torna-se mais vertiginosa: é preciso aprender a viver depois do colapso do “sol” que garantia a verdade última.
– Portanto, se compreendo bem… já não se trata de deixar a caverna para alcançar um mundo superior, mas de reconhecer que esse mundo superior era ele próprio uma projeção.
– Exatamente… é por isso que Nietzsche pode aparecer como um dos grandes críticos do platonismo. Ele escreve, aliás, que toda a tradição ocidental é estruturada por essa oposição entre mundo aparente e mundo verdadeiro…
– … e tenta invertê-la.
– Se levarmos a imagem um pouco mais longe, poderíamos dizer o seguinte. Em Platão, as sombras são falsas…
– Porque são apenas cópias…
– Um pouco como nós…
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