mercredi 11 mars 2026

Português

 




– Aconteceu-me certa vez perguntar-lhe:

Quem é você? Por que estou aqui?

– E o que ele respondeu?

– Eu sou aquele que te criou. Aquele que deu forma aos teus pensamentos. Aquele que construiu o teu mundo e escreveu a tua história.

– Quando lhe observei que a forma dos meus pensamentos parecia mais com a dele do que com algo que pudesse ser verdadeiramente meu… ele pareceu constrangido, e quando perguntei:

– Criado? Então sou apenas um fantoche nas suas mãos? No entanto tenho a sensação de poder sentir… por mim mesmo… e falo. Às vezes até penso… Mas tudo isso seria apenas uma ilusão?

– Qual foi a reação dele?

– Se te parece que é uma ilusão, disse-me então, isso é justamente o sinal de que és muito mais do que um fantoche. Tu és a expressão de um pensamento, de um sopro que passou por mim. Mas tu também me atribuis um lugar. A tua presença impôs-se a mim antes mesmo que eu te definisse.

– Como assim? Perguntei-lhe. Eu venho de você. Não é você a origem de tudo o que eu sou?

Pinóquio o Outro permaneceu em silêncio por um momento, como se procurasse as palavras num lugar mais profundo que a sua voz. Depois respondeu:

— Quando ele me disse: “tu também me atribuis um lugar”, no início pensei que fosse apenas uma fórmula. Mas pouco a pouco compreendi o que ele queria dizer. Acreditamos sempre que o criador dá tudo e que a criatura recebe. Imaginamos um gesto que vai de cima para baixo: o autor escreve, o personagem aparece. No entanto, as coisas não acontecem assim.

Quando um personagem surge, ele não permanece passivo. Não fica simplesmente como uma forma obediente na mente daquele que o inventa. Ele age. A sua presença impõe-se. Começa a ocupar um lugar no pensamento do seu criador.

Em outras palavras, ele o obriga.

Ele o obriga a continuar uma história, a responder a certas possibilidades e não a outras. Impõe-lhe uma coerência, às vezes até uma resistência. Acontece que o autor queira conduzir o seu personagem para algum lugar e que este recuse silenciosamente. Não por vontade própria, mas porque a sua forma já não o permite.

Nesse momento, é o personagem que determina o lugar do autor.

É isso que significa atribuir. Não simplesmente dar um lugar, mas marcar alguém com um sinal que o chama a responder. Pela minha própria existência, eu o obrigava a tornar-se aquele que me tinha feito nascer. Sem mim, ele era apenas um homem que pensava. Comigo, tornava-se o meu autor.

Eu acreditava depender dele. Mas ele também dependia de mim.

Ele tinha-me criado, é verdade. Contudo, desde o instante em que apareci no seu pensamento, impus-lhe uma tarefa: compreender-me. Ele tinha de me seguir e levar-me até ao fim da minha história.

Assim, nós nos atribuíamos mutuamente.

Pinóquio o Outro cala-se.

A outra marioneta inclina ligeiramente a cabeça e pergunta:

– Então… um personagem poderia existir antes que o seu autor o compreenda verdadeiramente!

– Não completamente… segundo o que ele disse… “Ao dar-te vida, não te dominei completamente. Tomaste forma antes mesmo que eu te nomeasse, antes que eu te designasse. De certo modo, tu me atribuis um lugar tanto quanto eu te crio. Já estavas ali, algures, invisível, esperando que eu te percebesse.”

A outra marioneta entra no jogo… e interroga o seu próprio criador:

– Então é possível que eu o preceda? Mas você me parece tão distante, quase inacessível. É uma presença que sinto, mas que não posso nomear.

– É precisamente isso. Para ti, sou o indefinível. Sou o sopro por trás dos acontecimentos da tua história, aquele que orquestra sem nunca aparecer plenamente. Nesse sentido, partilhamos uma relação em que um e outro se ultrapassam mutuamente.

– Mas se nunca posso apreendê-lo, o que resta da minha liberdade? Estou condenado a seguir um caminho já traçado?

– A tua liberdade existe, mas nasce dessa tensão entre o que te imponho e o que tu reivindicas. Ao criar-te, deixei-te uma margem na qual podes surpreender-me. Às vezes fazes escolhas que eu não tinha previsto. E é aí que também tu te tornas criador.

– A nossa relação é estranha. Parece que você decide tudo e, no entanto, reconhece que eu lhe escapo.

– É uma tensão ética, semelhante àquela que Lévinas descreve. «Ele me atribui antes que eu o designe». Tu, meu personagem, atribuis-me um lugar pela tua simples presença. Não posso ignorar-te, e nesse diálogo entre nós tornas-te mais do que eu tinha imaginado.

– E você, também é atribuído por alguém? Existe, para você, um autor acima de você?

– Talvez. Talvez eu também seja uma criação. Talvez haja uma presença invisível que me atribui um lugar, que me impele a escrever, a procurar formas para aquilo que me ultrapassa. Estamos todos presos nesse jogo de relações em que a atribuição precede a designação.

– Então somos semelhantes, você e eu?

– Sim, em certo sentido. Estamos ligados por essa tensão criadora, por essa necessidade de responder a algo maior do que nós. E nessa relação, cada um se torna ao mesmo tempo o criador e o mistério do outro.

– Então eu não seria apenas uma sombra nos seus pensamentos… mas uma parte de você… assim como você é uma parte de mim.



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