jeudi 12 mars 2026

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“A manipulação tem má reputação. Ela nos choca porque insinua o sentimento de que já não seríamos senhores no comando dos nossos pensamentos, dos nossos comportamentos, das nossas vidas. Como diz muito justamente Philippe Breton, « a manipulação consiste em ‘entrar por arrombamento’ no espírito de alguém para ali depositar uma opinião ou provocar um comportamento sem que essa pessoa saiba que houve arrombamento ».

Etimologicamente, porém, essa noção não tem nada de pejorativo. Ela remete a uma história da mão. É o gesto do fisioterapeuta que alivia ou previne a dor. É a técnica do químico que manipula substâncias no seu laboratório e faz avançar a ciência. É ainda a destreza do prestidigitador que subtrai um objeto ao olhar do espectador antes de o fazer reaparecer. Essa dimensão mágica entra, aliás, nas nossas representações metafóricas do termo: a manipulação mental transformar-nos-ia, como uma força oculta, em peões que uma mão invisível poderia mover à vontade.”

Obra dirigida por Benoît Heilbrunn, Psychologie de la manipulation, Agora ensaios


Desde há muito tempo, quando ainda era apenas uma criança e como hoje, no circo onde acredita lembrar-se de ter nascido, muito antes de se pôr em busca e encontrar Sang Chaud, no seu espírito e no seu corpo, Don Carotte observa dois mundos que se enfrentam…

– Isto não é um duelo… e não é dentro ou para uma hipotética vitória que eles existem, pensa ele: é uma fuga recíproca. Como dois acrobatas que se cruzam no ar sem jamais se agarrar, deixando ao público a ilusão de uma proeza. O triunfo de um é apenas a ausência do outro.

E, no entanto, ele vê, ele sente: esses mundos partilham tudo… poeira, objetos e os mesmos corpos. Não é preciso atravessar mares ou montanhas: basta dar um passo ou levantar os olhos. O duelo já está ali, entre o sonho e o ato, entre o cume conquistado por uma palavra e a encosta subida pelas pernas, entre a frase fluida e a água que afoga, entre o impulso de uma ideia e o pisoteio da estrada.

Aquilo que se diz dentro dele torna-se então límpido: o relato não é nem poema nem diário. Ele quer tomar tudo num único gesto: o esforço e o pensamento, o suor e a imagem. Ele conhece o grito do músculo e a dança da palavra. Não separar mais o caminhante do escritor, nem o nadador do sonhador. Ser pintor e peregrino, tudo ao mesmo tempo, uma respiração única. O enigma desloca-se. Onde, no humano, se aloja essa potência de manter juntos aquilo que se opõe? Como unir sem reduzir?

E imediatamente vem o outro medo: se esses mundos se destruírem… se um apagar o outro até não deixar subsistir senão metade de um homem… Esse seria o maior empobrecimento: renunciar ao duplo jogo, perder a aliança da carne e do sonho, do gesto e do olhar. Pois viver não é ser dois num único instante?

Don Carotte permanece sempre no centro. Ele não se move e, no entanto, vacila. Sente-se olho: mas um olho olhado mais do que olhando. Pupila oferecida aos projetores, aos espectadores, ao mundo. Nesse instante já não é o seu pensamento que prolonga o seu ser; é o pensamento que o atravessa. Nem loucura, nem razão, mas esse ponto obscuro onde tudo começa sem ter começado, onde tudo já está ali sem ainda estar.


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