lundi 18 mai 2026

(70) A abracadabrante história da Criança Lua

 Em todo este pequeno mundo de figuras, cadernos, desenhos, vozes deslocadas e papagaios-narradores, as imagens e as palavras nunca são simples objetos decorativos. Elas falam porque contêm um enigma, uma resistência à assimilação imediata. Os desenhos de Igniatius, por exemplo, não funcionam como produtos culturais consumíveis. Suspendem a linguagem comum. Obrigam Lucian, e depois Félix, a permanecer numa zona de incerteza. Em outras palavras, desaceleram a interpretação. Impedem o consumo imediato do sentido.


Os papagaios, de cuja independência se poderia legitimamente duvidar, dialogam no entanto…
— Porque aparecemos sob a forma de desenhos?
— O desenho desacelera naturalmente o olhar… e nós não somos mais do que isso… Obriga a regressar, a seguir linhas que se cruzam, estratos invisíveis ou detalhes silenciosos. Resiste ao consumo instantâneo do visível.
— Isso é um ponto de vista…
— …que pode ser violento…
— …mas civilizado…
— Há pontos de vista em que a palavra “civilização” deixa de ser tranquilizadora. Pois a ideia segundo a qual uma civilização desaceleraria a violência torna-se insuficiente assim que percebemos que certas formas de violência já não precisam explodir para agir.
— E como o fazem?
— Circulam sob a forma de normalidade. E esse é provavelmente um dos grandes deslocamentos da violência moderna.
— Em muitas sociedades antigas, a violência era visível… suplícios… guerras… dominações diretas… escravidão assumida… e coisas ainda piores…
— A civilização moderna reduziu efetivamente certas violências imediatas. O homicídio privado tornou-se menos frequente. As vendetas diminuíram. O direito substitui parcialmente a vingança pessoal. Sob esse aspecto, a desaceleração existe realmente.
— Vejo aproximar-se de longe uma certa objeção…
— Mas simultaneamente aparece outra coisa…
— Diga-me!
— Uma violência difusa… administrativa… económica… psíquica… simbólica… estatística.
— Uma violência que age menos por explosão do que por modulação contínua das existências.
— Exatamente… porque uma sociedade pode produzir ordem ao mesmo tempo que aumenta certas formas de violência interior… aceleração permanente… vigilância difusa… concorrência constante… normalização dos comportamentos… pressão pelo desempenho… uniformização dos desejos… produção de angústia social.
— E nesse caso… a civilização já não desacelera simplesmente a violência.
— Ela transforma-a.
— Por vezes substitui a brutalidade visível por uma pressão sistémica mais silenciosa.
— É por isso que certos pensadores do século XX… sem sequer entrarem num debate partidário… questionaram profundamente a ideia ingénua de progresso civilizacional.
— O regresso dos Bárbaros?
— Não porque sonhassem com um retorno à barbárie, mas porque viam que as sociedades modernas podiam fabricar formas extremamente sofisticadas de constrangimento.
— Sob que formas?
— Uma civilização produz sempre mecanismos de regulação… mas esses mecanismos podem proteger tanto quanto podem esmagar.
— De modo que o mesmo aparelho administrativo que garante direitos pode tornar-se aparelho de controlo.
— A mesma linguagem comum que permite o diálogo pode tornar-se língua obrigatória.
— A mesma ordem pública que impede certas violências pode sufocar certas singularidades.
— Assim, o conformismo torna-se uma questão imensa.
— Sim… porque o conformismo age frequentemente sem precisar de polícia visível. Passa pelo olhar coletivo, pelos hábitos, pelos modelos de sucesso, pelas formas implícitas do “real aceitável”.
— Um real que não é o nosso…
— E essa violência possui algo de particularmente estranho…
— Está a preocupar-me…
— Frequentemente exige a participação ativa daqueles que molda.
— Nós… por exemplo…
— Não constrange apenas a partir do exterior.
— O que quer dizer?
— Penetra os próprios desejos.
— Eu deveria tremer… mas… isso não me parece corresponder ao nosso mundo… mas antes um pouco ao que posso saber do mundo do nosso mestre…
— O capitalismo moderno, sobretudo nas suas formas tecnologicamente mais avançadas, tende frequentemente a acelerar… a circulação… o consumo… a produção… a informação…
— …não importa qual…
— a reação emocional… como acaba de dar um bom exemplo…
— …a competição… tal como…
— Ora, a aceleração contínua produz uma tensão psíquica crónica. O próprio tempo torna-se explorável.
— O silêncio torna-se improdutivo.
— A espera torna-se insuportável e a lentidão aparece como uma anomalia. Num tal mundo, certas dimensões tornam-se dificilmente habitáveis…
— Deixe-me adivinhar… a contemplação!
— Entre outras… maturação interior… luto… devaneio… pensamento profundo… transmissão lenta… atenção sustentada…
— Se compreendo bem, a civilização moderna contém, de certo modo, dois movimentos contraditórios…
— Exatamente… reduz certas violências arcaicas enquanto produz novas formas de pressão permanente.
— Então seria preciso reformular o que foi dito com maior prudência. Talvez uma civilização não seja simplesmente um desaceleramento da violência.
— Ela seria antes uma transformação histórica das suas formas.
— E se certas violências diminuem… outras tornam-se invisíveis…
— …mas continuam bem presentes…
— Algumas abandonam o corpo para atingir diretamente o tempo interior dos indivíduos.
E talvez seja aí que a arte, a literatura e certas figuras marginais ou deslocadas, como o nosso Enfant Lune, se tornam importantes. Não como fuga ao mundo, mas como reveladores de ritmos diferentes. Reintroduzem zonas de resistência à aceleração geral. Reabrem espaços onde algo ainda pode aparecer de outro modo que não sob a pressão da utilidade imediata.
Pois uma civilização inteiramente absorvida pela velocidade acaba frequentemente por perder a capacidade de ver aquilo que exige lentidão para se tornar visível.
io.

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