vendredi 11 septembre 2026

(207) A abracadabrante história da Criança Lua



Onde Félix, caminhando tanto pelas suas ideias como pelos próprios lugares onde se encontram vestígios deixados por Lucian e Igniatius, se pergunta se não terá, durante muito tempo, lido segundo uma ideia demasiado simples do que significa ler… Como se um texto, um caderno, uma carta, por vezes até um desenho, fossem apenas lugares onde alguém tivesse depositado alguma coisa para que ele viesse depois recolhê-la, compreendê-la, interpretá-la, eventualmente discuti-la, com essa impressão bastante confortável de que haveria, de um lado, aquilo que foi escrito ou traçado, e ele do outro, e entre ambos uma espécie de transmissão cujo êxito poderia avaliar com maior ou menor tranquilidade.

Caderno de Félix

E, no entanto, eu deveria lembrar-me do que tinha vindo aqui fazer. Essa recordação regressa-me por vezes com uma nitidez quase administrativa, e seria bastante fácil sorrir perante a distância que existe entre essa tarefa inicial e aquilo que estou agora a fazer. Eu devia examinar estes documentos, comparar as caligrafias, aproximar as datas quando existiam, distinguir os pormenores, as vozes, as retomadas ou as semelhanças… tentar saber quem tinha escrito o quê, quem tinha desenhado… e o que teria desenhado… o que pertence a Lucian, o que poderia pertencer a Igniatius, o que um recebera do outro ou lhe atribuíra, e sobretudo manter, entre aquilo que observava e mim próprio, a distância necessária para que o meu juízo não fosse arrastado pelo próprio objeto que devia examinar.

Hoje… não sinto qualquer desejo de regressar a essa posição… supondo sequer que alguma vez a tenha realmente ocupado. Mas a sua lembrança tornou-se-me útil de outra maneira. Permanece ali como algo que já não se move e contra o qual posso medir aquilo que, em mim, começou a mover-se. Talvez seja assim que uma rocha no meio de um rio torna visível a corrente. A água corria antes de a encontrar, continuará depois dela, mas em torno dessa massa imóvel surgem de repente remoinhos, espuma, linhas que se separam e voltam a reunir-se, e torna-se finalmente visível a velocidade daquilo que, um pouco mais adiante, poderíamos ter tomado por uma superfície momentaneamente tranquila. A minha tarefa inicial desempenha agora esse papel. Já não me diz aonde deveria regressar. Mostra-me apenas quanto me afastei da maneira como julgara poder cumprir essa tarefa.

Mesmo quando falava de participação, creio que ainda pensava apenas em completar aquilo que falta, imaginar o que não é mostrado, interpretar o que permanece ambíguo, oferecer àquilo que leio uma parte de mim próprio para que adquira maior relevo. Mas, de há algum tempo para cá, encontro outra coisa, algo de muito menos pacífico, pois parece-me que certos escritos, certas imagens, e talvez os livros em geral quando não se limitam a entregar docilmente aquilo que deles esperamos, começam por perturbar a maneira como nos preparamos para os receber, e fazem-no por vezes colocando alguma coisa no nosso caminho.

Penso nesses obstáculos… nessas repetições, nessas extensões, nesses desvios, nessas resistências que poderiam passar por defeitos se supuséssemos que o único dever de um livro é conduzir o leitor o mais comodamente possível até um sentido já pronto, quando talvez o obstáculo esteja precisamente ali para impedir essa comodidade, para impedir aquele que lê de continuar a ler como já sabe ler, obrigando-o a fazer… o quê, exatamente?

Permaneço sentado. Não vou a lado nenhum. Tenho diante de mim cadernos, folhas, cartas, desenhos, por vezes páginas que parecem responder a outras páginas sem que eu saiba ainda se estavam destinadas a encontrar-se, e materialmente nada me é pedido além de continuar. No entanto, abrando, volto atrás, mantenho durante algum tempo juntas duas coisas que antes teria separado, aceito que uma frase permaneça aberta mais tempo do que eu teria desejado, e sobretudo apercebo-me de que certos hábitos meus, aqueles que normalmente me permitem reconhecer rapidamente aquilo que leio e prosseguir, se tornam aqui menos eficazes, como se aquilo que tenho diante dos olhos não recusasse dar-me alguma coisa, mas recusasse apenas dar-ma da maneira como eu previra recebê-la… Então ocorre-me uma pergunta, numa formulação que de início me parece quase excessiva.

Seria preciso agir para ler?

Nem sequer sei ainda muito bem o que esse verbo significa aqui. Agir parece forte demais para designar alguém que permanece imóvel diante de algumas páginas ou de alguns desenhos. Talvez se devesse dizer apenas: fazer alguma coisa. Alterar o ritmo. Voltar atrás. Esperar. Relacionar. Aceitar, por algum tempo, que uma coisa resista ao seu nome. Mas, à medida que penso nisso, essa atividade quase impercetível parece-me menos secundária do que eu teria imaginado, pois não vem simplesmente acompanhar a leitura… acontece ser precisamente aquilo sem o qual a leitura já não pode continuar da mesma maneira.

E talvez seja isso que me perturba nesta pergunta. Não se trataria de agir depois de ter lido, como se age depois de receber uma instrução, compreender uma ideia ou tomar uma decisão. A ação, se é realmente assim que devemos chamá-la, teria lugar dentro da própria leitura. Seria esse pequeno deslocamento que por vezes exige a passagem de uma página a outra, de uma carta a um desenho, de um caderno a uma lembrança anotada noutro lugar, quando simplesmente continuar já não basta.

Percebo então até que ponto esta ideia teria parecido estranha àquele que eu julgava ser quando comecei. Provavelmente teria dito que um observador digno desse nome devia precisamente precaver-se contra esses movimentos, reconhecê-los como efeitos produzidos nele por aquilo que examina e mantê-los à distância, para que não alterassem o seu juízo. Hoje, nem sequer diria que isso era falso. Constato apenas que essa precaução já não descreve aquilo que me acontece, e que o facto de me recordar dela torna essa mudança mais percetível do que seria se simplesmente me abandonasse a ela.

Assim, a minha função inicial não desapareceu. Mudou de lugar. Antes, era a partir dela que eu julgava poder observar. Agora, torna-se aquilo contra o qual descubro que me desloquei.


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