Caderno de Lucian
Não sei o que Félix escreve em seu caderno.
Nunca lhe perguntei. Não preciso. Há coisas que se adivinham pela maneira como alguém se cala, ou levanta os olhos, ou escolhe uma palavra em vez de outra… e, de qualquer forma, ele não consegue deixar de falar disso.
Há algum tempo, quando eu falo, ele escuta de outro modo. Não é um recuo. É um deslocamento. Como se o que eu dissesse viesse pousar sobre algo que ele já começou a escrever em outro lugar, para si. Acho que ele pensa em profundidade. Em camadas. Ele não me diz isso, mas eu sinto. Seu modo de comentar sem parecer comentar, de me trazer de volta ao texto, não é um simples lembrete do enquadre. É como se ele se recusasse a descer ao meu lugar. Como se soubesse que certas cavidades não suportam dois corpos ao mesmo tempo.
Eu estou mais perto.
Sei disso agora. Perto demais, às vezes.
Quando falo de Igniatius, ainda falo com ele. Quando falo de Don Carotte, falo a partir dele. E Sang Chaud… Sang Chaud já é outra coisa. Ainda não sei o quê, mas sei que ele me deixou antes que eu o aceitasse.
Há pouco, durante a sessão, Félix disse: eu vejo.
Não acrescentou nada. Mas compreendi que ele via algo que eu não podia me permitir ver… ainda não. Não tentei lhe perguntar o quê. Seria inútil. Quando alguém vê, isso se sabe pela maneira como se cala depois.
Às vezes me pergunto se o que faço com Igniatius, falo de sua análise, não é já uma descida rápida demais. Eu escuto, anoto, desenho. Acho que seguro a lâmpada, mas há momentos em que a luz é forte demais. As imagens queimam. Depositam-se no papel antes que eu possa contê-las.
Félix, por sua vez, olha de mais longe. Ele ainda pode distinguir as formas gerais. Eu estou no detalhe. Na parede. Na aspereza, com poucas pegadas. Toco mais do que vejo.
Don Carotte, Sang Chaud… eu os deixei agir. Achei que isso fosse escutar: permitir que falassem, que se transformassem, que se opusessem. Mas começo a me perguntar se não confundi acolhimento com abdicação.
Há algo de estranho em ver um personagem se rebelar contra seu autor, depois contra aquele que o escuta. Em ver uma figura ganhar espessura, depois poder. Em sentir que ela poderia continuar sem você.
Não escrevo isso para me inquietar. Escrevo para me situar. Se Félix pensa em cavernas, talvez eu já esteja em uma delas sem o saber. Uma cavidade intermediária, escavada pela repetição, pela fidelidade à palavra do outro. Uma caverna onde as imagens se tornam sólidas.
Não sei se quero subir de volta… Não sei se posso… Mas sei uma coisa: se eu continuar a escrever, a desenhar, a escutar, não será para produzir um relato que se baste a si mesmo. Será para não esquecer que, mesmo na profundidade, alguém ainda olha de mais longe.
Fecho o caderno.
Não para concluir.
Para não escrever no lugar de outra pessoa.

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