A montanha nunca se eleva num só gesto. Os seus movimentos são lentos. Ela é obstinada, embora quase relutante em aparecer. Antes de ser forma, é tensão. Antes de ser cume, é pressão invisível, acumulada na escuridão mineral das profundezas da Terra. Aqui, diante dessas paredes escuras e recortadas, Lucian, caminhante solitário, habituado a essas alturas, está preocupado com o que se passa com Igniatius. É neste ambiente selvagem que ele tenta reencontrar a calma.
— O relevo montanhoso é uma memória solidificada… diz a si mesmo todas as vezes. Essas rochas violetas e negras carregam o vestígio de antigos oceanos desaparecidos. Foram sedimentos, depósitos frágeis de lodos e de vidas microscópicas, antes que as forças internas do planeta—essas lentidões colossais que o homem confunde com o imóvel—as erguessem, dobrassem, fraturassem. A montanha é um soerguimento do tempo: cada estrato é uma época, cada fissura um acontecimento. As rupturas abruptas narram os sobressaltos tectónicos, essas convulsões profundas nas quais a Terra, longe de ser estável, se revela organismo em perpétua metamorfose.
À medida que se avança por essas cornijas estreitas, o passo humano torna-se mais humilde. A montanha impõe a sua própria escala: aqui, os séculos valem segundos, e o instante humano dissolve-se na espessura geológica. O silêncio não é ausência de vozes, mas saturação de histórias vastas demais para serem ouvidas de uma só vez. O vento, ao deslizar pelas arestas, parece retomar um diálogo iniciado muito antes do surgimento de qualquer consciência.
Cientificamente, esses relevos são o resultado de um equilíbrio instável entre forças endógenas e forças de erosão. Mas filosoficamente, são outra coisa: a prova de que a natureza não visa nem a harmonia imediata nem a utilidade humana. Ela experimenta, tenta, destrói para recomeçar. A montanha não é um monumento fixo; é um processo em curso, uma obra inacabada que os elementos—sol, vento, chuva, gelo e gravidade—retocam sem cessar.
Lucian, como um explorador, de pé num promontório, sai da sua história e torna-se mediador entre duas temporalidades. O seu olhar une o rigor da observação científica à emoção de uma consciência atingida pelo sublime. Ele mede ângulos, reconhece litologias, mas sente também que essas massas minerais atuam sobre a alma: alargam o pensamento, deslocam as certezas, obrigam a conceber o mundo como uma rede de relações profundas entre matéria e energia vital.
Assim, a montanha não é apenas um objeto de estudo; é uma escola. Ela ensina a paciência, a continuidade, a potência das causas invisíveis. Recorda que a história humana é apenas uma camada fina depositada à superfície de um relato muito mais antigo. E nessa verticalidade sombria e silenciosa, sob esse céu austero, o explorador compreende que conhecer a natureza não é dominá-la, mas aprender a pensar à sua medida.
— O relevo montanhoso é uma memória solidificada… diz a si mesmo todas as vezes. Essas rochas violetas e negras carregam o vestígio de antigos oceanos desaparecidos. Foram sedimentos, depósitos frágeis de lodos e de vidas microscópicas, antes que as forças internas do planeta—essas lentidões colossais que o homem confunde com o imóvel—as erguessem, dobrassem, fraturassem. A montanha é um soerguimento do tempo: cada estrato é uma época, cada fissura um acontecimento. As rupturas abruptas narram os sobressaltos tectónicos, essas convulsões profundas nas quais a Terra, longe de ser estável, se revela organismo em perpétua metamorfose.
À medida que se avança por essas cornijas estreitas, o passo humano torna-se mais humilde. A montanha impõe a sua própria escala: aqui, os séculos valem segundos, e o instante humano dissolve-se na espessura geológica. O silêncio não é ausência de vozes, mas saturação de histórias vastas demais para serem ouvidas de uma só vez. O vento, ao deslizar pelas arestas, parece retomar um diálogo iniciado muito antes do surgimento de qualquer consciência.
Cientificamente, esses relevos são o resultado de um equilíbrio instável entre forças endógenas e forças de erosão. Mas filosoficamente, são outra coisa: a prova de que a natureza não visa nem a harmonia imediata nem a utilidade humana. Ela experimenta, tenta, destrói para recomeçar. A montanha não é um monumento fixo; é um processo em curso, uma obra inacabada que os elementos—sol, vento, chuva, gelo e gravidade—retocam sem cessar.
Lucian, como um explorador, de pé num promontório, sai da sua história e torna-se mediador entre duas temporalidades. O seu olhar une o rigor da observação científica à emoção de uma consciência atingida pelo sublime. Ele mede ângulos, reconhece litologias, mas sente também que essas massas minerais atuam sobre a alma: alargam o pensamento, deslocam as certezas, obrigam a conceber o mundo como uma rede de relações profundas entre matéria e energia vital.
Assim, a montanha não é apenas um objeto de estudo; é uma escola. Ela ensina a paciência, a continuidade, a potência das causas invisíveis. Recorda que a história humana é apenas uma camada fina depositada à superfície de um relato muito mais antigo. E nessa verticalidade sombria e silenciosa, sob esse céu austero, o explorador compreende que conhecer a natureza não é dominá-la, mas aprender a pensar à sua medida.
Caderno de Lucian
Anatole… como é que essa palavra me veio à mente quando Igniatius pareceu surpreendido na nossa sessão seguinte, quando lhe falei disso…
Anatole… tê-la-ei dito quase por provocação… para ver o efeito que produziria?
Nada… Félix não reagira. Nem sequer um sinal.
Ele poderia tê-lo feito, estou certo… ele também… provocar—ele sabe o que isso é…
— Não é um nome próprio, eu disse depois, como se quisesse retificar sem que Félix o pedisse. É… o que resta quando nenhum dos três fala realmente.
Procuro de novo nas minhas notas, que, no entanto, sei de cor… Se o faço, não é para me lembrar, é para sentir novamente como isso me veio e por que o disse e o anotei. É nesse movimento que algo verdadeiro se esconde…
— Anatole… não é alguém que fala. É o que acontece quando falar já não basta. Talvez seja esse silêncio que, como o da montanha, começa a criar um vínculo.
Anatole… tê-la-ei dito quase por provocação… para ver o efeito que produziria?
Nada… Félix não reagira. Nem sequer um sinal.
Ele poderia tê-lo feito, estou certo… ele também… provocar—ele sabe o que isso é…
— Não é um nome próprio, eu disse depois, como se quisesse retificar sem que Félix o pedisse. É… o que resta quando nenhum dos três fala realmente.
Procuro de novo nas minhas notas, que, no entanto, sei de cor… Se o faço, não é para me lembrar, é para sentir novamente como isso me veio e por que o disse e o anotei. É nesse movimento que algo verdadeiro se esconde…
— Anatole… não é alguém que fala. É o que acontece quando falar já não basta. Talvez seja esse silêncio que, como o da montanha, começa a criar um vínculo.

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