
No caminho, Lucian não saberia dizer quando o nome Anatole apareceu. Ele não estava escrito no caderno. Ainda não. Até então, também não havia sido pronunciado por Igniatius—ao menos não durante os seus muitos encontros. Um dia, ele se insinuou entre duas frases, entre dois suspiros…
“Anatole…”, dissera ele próprio.
Quase apenas para ver o efeito que teria. E Félix não reagira. Nem um sinal. Apenas um silêncio—e esse silêncio não era nem aprovação nem recusa. Antes, uma maneira de não dar consistência demasiado cedo ao que acabara de ser solto.
“Não é um nome próprio”, continuei depois, como se me corrigisse sem que ninguém o tivesse pedido. “É… o que resta quando nenhum dos três fala realmente.”
Eu procurava as palavras. Sentia claramente que, se começasse a usar o meu jargão, isso iria longe demais… e eu teria então fabricado o que se chama uma figura. E isso já seria demais…
“Don Carotte fala para se manter. Sang Chaud fala para resistir, e Igniatius fala para se contar.”
Depois interrompi-me.
“Anatole… não é alguém que fala. É o que acontece quando falar já não basta.”
Félix deixa vir.
Nesse momento, o tempo de Lucian suspende o voo e paira sobre ele. O passado desaparece, e Lucian retoma, mais lentamente, como se Félix estivesse presente e caminhasse ao seu lado.“

No caderno, há um momento estranho. Nada lhe é acrescentado, e no entanto algo mudou. As frases são mais curtas. Como se a escrita hesitasse em continuar a produzir imagens.”
Ele folheia.
“Vê… aqui, Don Carotte já não descreve. Ele constata.”
“E Sang Chaud?”
“Sang Chaud já não responde. Ele anota.”
“E Igniatius… Igniatius desapareceu do texto sem que a sua ausência tenha sido indicada.”
“E Anatole?”, pergunta Félix, sem insistir, quase inocentemente.
Lucian sorri de leve.
“Anatole é talvez esse próprio silêncio que começa a criar um vínculo. Não uma unidade, nem uma solução. Um ponto onde ninguém pode dizer ‘eu’ sem tropeçar.”
Ele para bruscamente.
“Percebo que, assim que tento definir Anatole, eu o perco… ou perco a mim mesmo…”
“Então não o defina”, diz Félix.
A frase cai simplesmente. Não fecha nada.
Lucian respira fundo.
“Anatole não pensa. Não age. Nem sequer se lembra.”
Um instante de silêncio instala-se, prolonga-se, e tudo recomeça.
“Ele ilumina. Mas não como uma lâmpada. Antes como uma cortina que se abre sob a ação de uma corrente de ar… e depois, de repente, luz demais. A cortina abriu-se completamente… desviamos o olhar.”
Ele levanta a cabeça.
“Se eu fizer dele uma personagem, eu o traio. Se fizer dele um símbolo com sentido, eu o aprisiono. Ele só existe enquanto ninguém se apropriar dele.”
Félix acena quase imperceptivelmente.
“Então fiquemos por aqui”, diz ele. “Lá onde algo se diz sem ainda querer ser compreendido.”
Lucian fecha o caderno.
Pela primeira vez em muito tempo, ele não procura a continuação. Aceita que o texto—ou o diálogo entre eles, por ora—pare onde a linguagem começa a faltar, e que essa falta, precisamente, faça o trabalho.
De volta a casa, Lucian volta a escrever. Ele sabe muito bem que vai repetir-se, mas não se importa…
“Há, na representação, um certo defeito que às vezes permite sair da repetição…”
Ele retorna ao início da conversa com Félix, quando não soubera dizer quando o nome Anatole se impôs.
Ele não estava escrito no caderno. Ainda não.
Como e por que essa ideia se infiltrara no meu espírito?
O nome Anatole também não fora pronunciado por Igniatius. Ele se infiltrara entre duas frases, entre os dois lados de uma cortina sacudida pelos sobressaltos das minhas emoções e que só pedia para se abrir.
“Anatole…”, eu havia dito, quase por provocação… para ver o efeito que teria.
Félix não reagira. Nem um sinal.
“Não é um nome próprio… um sobrenome… apenas um prenome”, eu havia dito depois, como se quisesse corrigir-me sem que Félix o pedisse. “É… o que resta quando nenhum dos três fala realmente.”
Ele procura nas suas notas.
“Anatole… não é alguém que fala. É o que acontece quando falar já não basta. É talvez esse próprio silêncio que começa a criar um vínculo.”
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