Caderno de Lucian
Eu a havia guardado na memória… Onde quer que eu vá… Seja qual for a hora… ela me acompanha na cabeça… Ao pensar nisso e, sobretudo, ao me reler, já não sei o que quis dizer. A frase está ali, no entanto. Eu a reconheço. Reconheço até a caligrafia e revivo literalmente o momento em que a pus no papel. E, no entanto, ela já não me obedece. Ela se desprendeu da intenção que a produziu. Tornou-se outra coisa… ou várias coisas ao mesmo tempo.
Fecho o caderno. Não para concluir.
Para não escrever no lugar de outra pessoa.
Na primeira leitura, ainda ontem, isso me parecia claro. Deveria ser evidente. Mais do que uma precaução, um lembrete ético. Não falar no lugar do paciente. Relatar sem forçar o sentido. Não se substituir.
Mas esta manhã, minha cabeça resiste… e a frase resiste. Ela não se deixa reduzir a essa única leitura.
Pergunto-me primeiro: no lugar de quem?
Imediatamente me vem à mente: no lugar de Igniatius, claro. Essa é a resposta mais imediata. Não escrever o que ele ainda não pode escrever por si mesmo. Não dar forma cedo demais ao que, nele, ainda procura. Disso eu tenho certeza… eu sei. É o próprio coração do meu trabalho. Mas, ao reler, surge outra possibilidade.
Seria no lugar de Don Carotte?
Surpreendo-me pensando que, ultimamente, talvez pela magia de Igniatius, eu tenha compreendido suas frases bem demais. Também nos desenhos eu segui seus movimentos com excesso de precisão e, deixando-me levar, antecipei demais seus volteios. Como se eu pudesse falar em seu lugar. Como se o personagem me tivesse emprestado sua voz, ou o contrário.
E depois há Sang Chaud. Ou aquele em que ele se torna ao sair literalmente da história e que, ao sair, muda de nome. Aí, a frase se turva… me turva ainda mais. Pois escrever no lugar de alguém não é apenas falar por ele. É às vezes impedi-lo de sair do relato, mantendo-o dentro dele, numa forma que nos tranquiliza.
Eu paro. Releio mais uma vez.
Para não escrever no lugar de outra pessoa.
E, de repente, surge um pensamento incômodo:
e se esse outro fosse Félix?
Não porque eu queira falar por ele. Mas porque, há algum tempo, sinto que nossas escritas, como dizer… se roçam. Como se o que eu anoto viesse às vezes preencher o que ele deixa em suspenso. Como se, ao escrever demais, eu corresse o risco de ocupar o próprio espaço que ele tenta manter aberto.
A frase então ganha outro sentido.
Fechar o caderno não seria apenas um gesto de contenção clínica. Seria um gesto de separação. Uma maneira de dizer:
O que deve ser pensado em outro lugar não deve ser escrito aqui.
Percebo que essa frase talvez não seja uma decisão. É uma resistência. Uma resistência à tentação de totalizar e de ligar rápido demais.
Ao relê-la, compreendo também outra coisa:
escrever no lugar de outra pessoa não significa apenas falar em seu lugar. Pode também significar assumir o que ainda não me pertence. Apressar uma saída. Nomear antes da hora. Eu não deveria dar um sentido definitivo ao que só pede para permanecer instável.
Vou fechar o caderno.
Compreendo agora que esse gesto não será um fim, mas apenas uma suspensão.
Não, não será para concluir, mas para deixar intacta a possibilidade de que alguém outro—seja paciente, personagem, colega, ou mesmo eu, mais tarde—escreva de outra maneira.
Vou deixar a frase tal como está. Não a corrigirei, no pois ela diz mais do que eu sabia ao escrevê-la.
Fecho o caderno. Não para concluir.
Para não escrever no lugar de outra pessoa.
Na primeira leitura, ainda ontem, isso me parecia claro. Deveria ser evidente. Mais do que uma precaução, um lembrete ético. Não falar no lugar do paciente. Relatar sem forçar o sentido. Não se substituir.
Mas esta manhã, minha cabeça resiste… e a frase resiste. Ela não se deixa reduzir a essa única leitura.
Pergunto-me primeiro: no lugar de quem?
Imediatamente me vem à mente: no lugar de Igniatius, claro. Essa é a resposta mais imediata. Não escrever o que ele ainda não pode escrever por si mesmo. Não dar forma cedo demais ao que, nele, ainda procura. Disso eu tenho certeza… eu sei. É o próprio coração do meu trabalho. Mas, ao reler, surge outra possibilidade.
Seria no lugar de Don Carotte?
Surpreendo-me pensando que, ultimamente, talvez pela magia de Igniatius, eu tenha compreendido suas frases bem demais. Também nos desenhos eu segui seus movimentos com excesso de precisão e, deixando-me levar, antecipei demais seus volteios. Como se eu pudesse falar em seu lugar. Como se o personagem me tivesse emprestado sua voz, ou o contrário.
E depois há Sang Chaud. Ou aquele em que ele se torna ao sair literalmente da história e que, ao sair, muda de nome. Aí, a frase se turva… me turva ainda mais. Pois escrever no lugar de alguém não é apenas falar por ele. É às vezes impedi-lo de sair do relato, mantendo-o dentro dele, numa forma que nos tranquiliza.
Eu paro. Releio mais uma vez.
Para não escrever no lugar de outra pessoa.
E, de repente, surge um pensamento incômodo:
e se esse outro fosse Félix?
Não porque eu queira falar por ele. Mas porque, há algum tempo, sinto que nossas escritas, como dizer… se roçam. Como se o que eu anoto viesse às vezes preencher o que ele deixa em suspenso. Como se, ao escrever demais, eu corresse o risco de ocupar o próprio espaço que ele tenta manter aberto.
A frase então ganha outro sentido.
Fechar o caderno não seria apenas um gesto de contenção clínica. Seria um gesto de separação. Uma maneira de dizer:
O que deve ser pensado em outro lugar não deve ser escrito aqui.
Percebo que essa frase talvez não seja uma decisão. É uma resistência. Uma resistência à tentação de totalizar e de ligar rápido demais.
Ao relê-la, compreendo também outra coisa:
escrever no lugar de outra pessoa não significa apenas falar em seu lugar. Pode também significar assumir o que ainda não me pertence. Apressar uma saída. Nomear antes da hora. Eu não deveria dar um sentido definitivo ao que só pede para permanecer instável.
Vou fechar o caderno.
Compreendo agora que esse gesto não será um fim, mas apenas uma suspensão.
Não, não será para concluir, mas para deixar intacta a possibilidade de que alguém outro—seja paciente, personagem, colega, ou mesmo eu, mais tarde—escreva de outra maneira.
Vou deixar a frase tal como está. Não a corrigirei, no pois ela diz mais do que eu sabia ao escrevê-la.

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