Poder-se-ia acreditar que
uma caverna é um lugar fechado, uma bolsa de noite escavada de uma vez
por todas na rocha. Mas isso seria projetar sobre a terra a nossa
impaciência. As cavernas, se aceitarmos pensá-las em durações que
excedem qualquer biografia, nunca são simples. Elas se sobrepõem.
Existem
montanhas cuja massa inteira é atravessada por cavidades, abertas em
épocas diferentes, por águas diferentes, sob climas que já não têm nada
em comum. Uma primeira caverna se forma quando a rocha ainda é jovem.
Ela é ampla, quase hospitaleira. Milênios depois, a água muda de curso, a
pressão se modifica e, mais abaixo, outra caverna começa a ser
escavada. Ela não se comunica com a primeira. Ela a ignora. Obedece a
outra lógica, a outro regime de forças. Depois, ainda mais tarde, muito
mais tarde, surge uma terceira cavidade, tortuosa e estreita. Ela é
quase invisível da superfície. Não é a continuação das anteriores, mas
sua descendência indireta. Ela não as conhece, mas não existiria sem
elas.
Isso é uma estratificação de cavernas. Nenhuma contém a
verdade do conjunto. Cada uma é completa a partir de sua própria noite.
E, no entanto, todas pertencem à mesma montanha.
O observador
humano sempre chega tarde demais. Ele desce com instrumentos concebidos
para a superfície — entre eles, lâmpadas e mapas. Ilumina uma parede e
acredita compreender sua forma. Mas essa parede já é o resultado de
milhares de pressões anteriores. O que ele vê é um corte acidental numa
história que não se deixa narrar.
Quanto mais ele desce, mais a visão se perturba.
À
distância, a montanha é legível. Distinguem-se suas linhas gerais,
podem-se observar as dobras e as camadas aparentes; mas de muito perto
ela se torna opaca. A rocha não é mais do que uma massa sem contorno. A
luz se reflete mal. Os instrumentos saturam. A proximidade destrói a
visão.
O mesmo acontece aqui.
Igniatius talvez seja a
primeira caverna. Ampla, originária, aberta por um fogo antigo. Uma
caverna onde se conta para sobreviver, onde as figuras nascem porque é
preciso dar forma ao que arde. Ainda é possível circular ali. Há ar.
Vê-se mais ou menos claramente.
Lucian entraria numa segunda
cavidade. Mais profunda. Mais estreita. Ela não repete a primeira, mas
recolhe suas águas. Os relatos ali se tornam desenhos ou cadernos. Já
não é o calor do fogo, mas a persistência da forma que trabalha a rocha.
Aqui, já não se cria apenas: reproduz-se, anota-se. A luz é mais fraca,
mas mais precisa.
Depois vem uma terceira caverna, ainda mais
profunda. Aquela onde Félix se encontra. Ela não foi escavada pelo fogo,
nem apenas pela água, mas pelo próprio olhar. Um olhar que observa as
outras cavernas, que tenta compreender sua disposição, sabendo ao mesmo
tempo que nunca as verá juntas.
Dali, Félix vê de longe — e é
então que compreende melhor. Distingue as linhas gerais. Observa as
relações, as influências. Depois se aproxima. Vê melhor os detalhes.
Reconhece os rostos, escuta as palavras. Depois está perto demais. Então
já não vê. A proximidade cega. O rosto se confunde com a parede. A
imagem queima.
Don Carotte e Sang Chaud são como formações
internas da montanha. Concreções que se desprenderam da parede. Elas
tomaram forma e se deslocam. Os dois companheiros não sabem a que
profundidade se encontram. Revoltam-se, substituem-se, salvam-se e
destroem-se, sem jamais ver a montanha inteira da qual provêm.
E, no entanto, apesar dessa ignorância constitutiva, algo insiste.
O
ser humano, mesmo condenado a jamais abarcar a totalidade, não renuncia
a projetar-se. Ele desce. Anota. Compara. Imagina continuidades onde só
pode estabelecer analogias. Aceita o desconforto de não compreender, ao
mesmo tempo que recusa a imobilidade.
Talvez seja isso, no fundo,
o gesto comum de Félix, de Lucian, de Don Carotte e de Sang Chaud:
deslocar-se numa montanha cujo mapa jamais verão, sabendo que cada passo
modifica a caverna seguinte.
A estratificação não está apenas na rocha.
Ela está no olhar.
Ela está no olhar.

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