lundi 22 décembre 2025

Estratificação

 

 
 Poder-se-ia acreditar que uma caverna é um lugar fechado, uma bolsa de noite escavada de uma vez por todas na rocha. Mas isso seria projetar sobre a terra a nossa impaciência. As cavernas, se aceitarmos pensá-las em durações que excedem qualquer biografia, nunca são simples. Elas se sobrepõem.
Existem montanhas cuja massa inteira é atravessada por cavidades, abertas em épocas diferentes, por águas diferentes, sob climas que já não têm nada em comum. Uma primeira caverna se forma quando a rocha ainda é jovem. Ela é ampla, quase hospitaleira. Milênios depois, a água muda de curso, a pressão se modifica e, mais abaixo, outra caverna começa a ser escavada. Ela não se comunica com a primeira. Ela a ignora. Obedece a outra lógica, a outro regime de forças. Depois, ainda mais tarde, muito mais tarde, surge uma terceira cavidade, tortuosa e estreita. Ela é quase invisível da superfície. Não é a continuação das anteriores, mas sua descendência indireta. Ela não as conhece, mas não existiria sem elas.
Isso é uma estratificação de cavernas. Nenhuma contém a verdade do conjunto. Cada uma é completa a partir de sua própria noite. E, no entanto, todas pertencem à mesma montanha.
O observador humano sempre chega tarde demais. Ele desce com instrumentos concebidos para a superfície — entre eles, lâmpadas e mapas. Ilumina uma parede e acredita compreender sua forma. Mas essa parede já é o resultado de milhares de pressões anteriores. O que ele vê é um corte acidental numa história que não se deixa narrar.
Quanto mais ele desce, mais a visão se perturba.
À distância, a montanha é legível. Distinguem-se suas linhas gerais, podem-se observar as dobras e as camadas aparentes; mas de muito perto ela se torna opaca. A rocha não é mais do que uma massa sem contorno. A luz se reflete mal. Os instrumentos saturam. A proximidade destrói a visão.
O mesmo acontece aqui.
Igniatius talvez seja a primeira caverna. Ampla, originária, aberta por um fogo antigo. Uma caverna onde se conta para sobreviver, onde as figuras nascem porque é preciso dar forma ao que arde. Ainda é possível circular ali. Há ar. Vê-se mais ou menos claramente.
Lucian entraria numa segunda cavidade. Mais profunda. Mais estreita. Ela não repete a primeira, mas recolhe suas águas. Os relatos ali se tornam desenhos ou cadernos. Já não é o calor do fogo, mas a persistência da forma que trabalha a rocha. Aqui, já não se cria apenas: reproduz-se, anota-se. A luz é mais fraca, mas mais precisa.
Depois vem uma terceira caverna, ainda mais profunda. Aquela onde Félix se encontra. Ela não foi escavada pelo fogo, nem apenas pela água, mas pelo próprio olhar. Um olhar que observa as outras cavernas, que tenta compreender sua disposição, sabendo ao mesmo tempo que nunca as verá juntas.
Dali, Félix vê de longe — e é então que compreende melhor. Distingue as linhas gerais. Observa as relações, as influências. Depois se aproxima. Vê melhor os detalhes. Reconhece os rostos, escuta as palavras. Depois está perto demais. Então já não vê. A proximidade cega. O rosto se confunde com a parede. A imagem queima.
Don Carotte e Sang Chaud são como formações internas da montanha. Concreções que se desprenderam da parede. Elas tomaram forma e se deslocam. Os dois companheiros não sabem a que profundidade se encontram. Revoltam-se, substituem-se, salvam-se e destroem-se, sem jamais ver a montanha inteira da qual provêm.
E, no entanto, apesar dessa ignorância constitutiva, algo insiste.
O ser humano, mesmo condenado a jamais abarcar a totalidade, não renuncia a projetar-se. Ele desce. Anota. Compara. Imagina continuidades onde só pode estabelecer analogias. Aceita o desconforto de não compreender, ao mesmo tempo que recusa a imobilidade.
Talvez seja isso, no fundo, o gesto comum de Félix, de Lucian, de Don Carotte e de Sang Chaud: deslocar-se numa montanha cujo mapa jamais verão, sabendo que cada passo modifica a caverna seguinte.
A estratificação não está apenas na rocha.
Ela está no olhar.

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